Um antigo relógio de bolso que marca o tempo de forma errática, prevendo eventos terríveis.

Um antigo relógio de bolso que marca o tempo de forma errática, prevendo eventos terríveis.

O Tique-Taque do Fado

A moldura do Rio das Pedras era um abraço preguiçoso de morros verdes e casas amontoadas como brinquedos esquecidos. Dona Lurdes, com seus oitenta e poucos anos, conhecia cada beiral, cada telha de barro rachada, cada segredo sussurrado pelas chuvas e pelos ventos. E conhecia, acima de tudo, o tique-taque de seu relógio de bolso. Um relógio que herdara do pai, um viajante que prometera voltar e nunca mais apareceu.

Não era um relógio comum. Seus ponteiros, em vez de um compasso regular, dançavam descompassados, acelerando em momentos de burburinho, quase parando em silêncios tensos. Dona Lurdes sempre o sentira assim, um presságio discreto no bolso interno de seu casaco de lã. Uma intuição fria que ela aprendeu a decifrar.

Naquele dia de outubro, o relógio parecia febril. Seus ponteiros giravam freneticamente, como se tivessem pressa para contar algo terrível. O som, mais alto que o habitual, ecoava no pequeno sobrado com cheiro de alfazema e pó. Dona Lurdes, sentada na poltrona de vime que rangia com sua cada vez menor presença, sentiu um nó na garganta. Sabia que algo estava por vir.

Seu neto, Tiago, um rapaz de vinte e poucos anos, o futuro incerto estampado nos olhos ora melancólicos, ora cheios de uma audácia juvenil, estava prestes a sair. O abraço dele apertado demais, o beijo na testa um pouco mais longo que o costumeiro.

“Cuidado, meu filho”, sussurrou Dona Lurdes, as mãos enrugadas pousadas em seus ombros magros. “O relógio… ele está inquieto.”

Tiago sorriu, um sorriso que não alcançava os olhos. “É só um relógio velho, vó. Não se preocupe.” Ele deu de ombros, a mochila nas costas parecendo carregar o peso do mundo, e saiu pela porta, o sol da manhã pintando o seu rosto com um brilho esperançoso.

Dona Lurdes observou-o ir, o coração batendo em um ritmo descoordenado, espelhando o do relógio em sua mão. Os ponteiros, então, pararam. Não por um segundo, mas de vez. Um silêncio súbito e absoluto tomou conta do cômodo. O silêncio que precede a tempestade.

As horas se arrastaram. O cheiro de alfazema parecia sufocante. A vizinha, Dona Carmem, a quem ela pediu para ficar de olho, entrou e saiu algumas vezes, o rosto marcado pela mesma apreensão que consumia a idosa. O barulho de uma sirene distante, que logo se dissipou, fez Dona Lurdes engolir em seco. O relógio, mudo em seu bolso, parecia gritar.

O cair da tarde trouxe consigo um burburinho diferente. Vozes alteradas, a agitação da rua. Dona Lurdes, com a força que só a angústia confere, levantou-se e foi até a janela. A luz alaranjada, antes acolhedora, agora tingia de vermelho o asfalto. Viaturas e ambulâncias paravam na rua de terra batida, a poucos metros de sua casa.

Dona Carmem veio correndo, o rosto pálido. “Dona Lurdes… houve um… um acidente. Ali na curva. Tiago…” As palavras se perderam em um soluço.

Dona Lurdes sentiu o corpo fraquejar, mas a mente estava clara. Os ponteiros do relógio, inertes, eram a prova final do que já sentia. Aquele tique-taque errático não era um prenúncio aleatório, era um aviso cruel.

Naquele mesmo instante, no bolso de sua saia, o relógio começou a vibrar. Lentamente, os ponteiros se moveram, marcando um novo ritmo. Um ritmo mais calmo, quase sereno. Um ritmo de espera.

Enquanto o burburinho aumentava e a tragédia se instalava no Rio das Pedras, Dona Lurdes fechou os olhos, o relógio pesado em sua mão. Sabia que o tempo, aquele que seu relógio marcava de forma tão peculiar, havia se distorcido para sempre. E o que o silêncio dos ponteiros significava agora, ela ainda não sabia. Talvez o fim de algo, ou o início de uma nova e silenciosa espera.


Por: Catarina de Assis Mendonça

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