O corpo de um homem sem identidade, coberto de musgo, é encontrado perto de um riacho.
O Cheiro do Verde
O sol da manhã, já preguiçoso, mal conseguia furar o emaranhado de folhas e cipós que adornavam as margens do Riacho das Flores. A água, em tom barrento após as chuvas da noite, murmurava um lamento baixo, como um segredo que se recusa a ser contado. Foi Dona Lurdes, com seu balde de alumínio batido e a pressa de quem quer pegar as melhores beterrabas na feira, que o viu. Primeiro, o verde. Um verde mais intenso, mais denso, que parecia brotar da própria terra, contrastando com o musgo úmido que cobria as pedras e as raízes expostas.
Ela parou, a respiração presa na garganta, o balde esquecido no chão. Era um corpo. Um homem, parecia. Deitado de lado, como se tivesse se recolhido para um sono profundo, mas um sono que a natureza havia reivindicado. O musgo, úmido e macio, envolvia-o como um manto, integrando-o à paisagem de tal forma que, a princípio, era quase impossível distinguir onde terminava a terra e onde começava a carne. O rosto, virado para o rio, estava emoldurado por aquela vegetação rasteira, os cabelos longos e emaranhados, como raízes escuras afundando na terra. Não havia sinais de violência aparente, apenas a quietude absoluta e o odor persistente de terra molhada e decomposição suave.
A notícia se espalhou pela pequena comunidade como fogo em palha seca. O vilarejo de Águas Claras, onde todos se conheciam pelo nome, pela profissão e pelos dramas familiares, de repente se viu diante de um mistério insondável. O homem do musgo. Ninguém o reconhecia. Não era o Seu Evaristo, que vendia cachaça artesanal. Não era o Juca, o peixeiro que sempre ria alto. Nem mesmo o Zé Pintado, o andarilho que passava de tempos em tempos, mas que tinha um rosto marcado e barbas desgrenhadas, não a pele suavemente coberta de verde.
O delegado, o jovem e impaciente Dr. Ramiro, chegou com seu carro novo e a frustração visível. Interrogou Dona Lurdes, os pescadores que passavam mais cedo, os sitiantes que tinham plantações perto do riacho. Ninguém. O corpo não trazia documentos. As roupas, em farrapos e tingidas pelo musgo, eram genéricas demais para indicar origem. Havia um tênue cheiro de mato, mas quem vive em Águas Claras não sente cheiro de mato?
Foi a jovem Clara, a bibliotecária recém-chegada da capital, que sentiu algo diferente. Ela, acostumada com o cheiro de livros antigos e café requentado, se aproximou do corpo com uma mistura de repulsa e fascinação. Em meio ao odor terroso, ela percebeu um perfume quase imperceptível, algo floral, delicado, que não combinava com a aspereza do musgo. Era o aroma residual de algum sabonete caro? Ou talvez, de uma flor guardada em um bolso que já não existia mais?
Enquanto a perícia tentava, sem sucesso, obter impressões digitais de dedos macios e infiltrados pela umidade, Clara passava horas na biblioteca improvisada da prefeitura, vasculhando jornais antigos, procurando por desaparecidos, por boatos, por qualquer migalha que pudesse dar um nome àquele rosto oculto. Ela imaginava sua vida: quem era ele antes de ser um corpo verde? Tinha família? Amigos? Amores? Por que viera parar ali, naquele recanto esquecido do mundo?
Uma tarde, sentada à beira do riacho, observando os pequenos peixes coloridos nadando em cardumes, Clara notou algo brilhante entre as raízes de uma figueira centenária, não muito longe de onde o corpo fora encontrado. Com cuidado, ela alcançou o objeto. Era um pequeno pingente de prata, em forma de estrela, com uma inscrição quase apagada. Usando a ponta de uma folha, ela limpou a superfície e conseguiu decifrar algumas letras: “L. + M.”.
Uma pontada de esperança. Um fio tênue a ser puxado. Clara sentiu um arrepio. O homem do musgo tinha um nome, ou pelo menos, um amor. Um amor que talvez tivesse deixado uma marca, um símbolo em sua jornada. Mas quem era L.? E quem era M.? Seriam eles quem o procurava? Ou seriam eles o motivo de sua solidão final?
O corpo, após dias, foi levado para a cidade vizinha, para a necrópsia oficial que, como era de se esperar, não trouxe mais respostas. O mistério do homem sem identidade permaneceu, pairando sobre Águas Claras como uma névoa persistente. Mas para Clara, algo mudara. O homem do musgo já não era apenas um corpo. Era um enigma, uma história incompleta que ela se sentia impelida a desvendar. Ela guardou o pingente no bolso, sentindo o frio da prata contra a pele. Naquele silêncio das margens do riacho, ela ouviu o murmúrio da água, e desta vez, parecia sussurrar não um lamento, mas um convite. Um convite para buscar, para conectar os pontos, para encontrar, talvez, o nome e a alma que se escondiam sob o cheiro do verde.
Por: Catarina de Assis Mendonça

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