Uma criança que fala com um amigo imaginário que exige sacrifícios.

Uma criança que fala com um amigo imaginário que exige sacrifícios.

O Menino e a Sombra Que Murmurava

A casa dos Santos rangia sob o peso do sol de janeiro. As venezianas fechadas filtravam a luz em listras tímidas pelo assoalho empoeirado da sala. Pedro, sete anos, pele queimada de sol e joelhos eternamente ralados, estava sentado no tapete desbotado, concentrado em desenhar. O lápis vermelho traçava linhas nervosas, a cor de um sangue que ele não ousava nomear. Ao seu lado, como uma extensão de sua própria sombra, estava Elias.

Elias não tinha cor, não tinha cheiro, não tinha o calor de outros meninos. Elias era um sussurro, um pensamento que se materializava na ponta do lápis de Pedro, no contorno das nuvens que ele via no céu azul sem fim. Elias era seu confidente, seu aliado, seu mestre.

“Ele não está bom, Pedro”, a voz de Elias era um raspar de folhas secas no silêncio da tarde. “O Tio Alberto está doente de novo. Você precisa fazer ele melhorar.”

Pedro engoliu em seco. O Tio Alberto era o vizinho aposentado, que sempre lhe dava balas de menta e histórias de pescador. Era magro, com a pele do rosto tão enrugada quanto a terra seca no quintal. Ele não estava bom, disso Pedro tinha certeza. A mãe vivia com um semblante preocupado, os ombros curvados.

“Como?”, perguntou Pedro, a voz embargada. Ele sabia. Sabia o que Elias exigia. O peso daquele conhecimento era um nó na sua garganta, mais duro que as bolinhas de gude que ele colecionava.

“Você sabe”, Elias roçou um pensamento na testa de Pedro. “Algo precioso. Algo que ele não queira perder. Algo que o faça pensar.”

As mãos de Pedro tremeram. Ele olhou para o desenho, para o coração vermelho que começava a tomar forma. A primeira vez que Elias pedira algo, fora o brinquedo favorito de Pedro, um carrinho azul com faróis que acendiam. Ele o havia enterrado no jardim de casa, sob uma roseira que já não dava flores. A alegria que sentiu ao ver o Tio Alberto sorrir no dia seguinte, menos pálido, fora ofuscada pela dor da perda.

Agora, era diferente. O Tio Alberto estava pior. E Elias… Elias ficava impaciente.

“O medalhão da Dona Clara”, sussurrou Elias, a sugestão insinuante como um vento frio.

O medalhão. Dona Clara, a mãe de Pedro, usava um medalhão antigo, com uma pedra azul turquesa, presente de seu falecido marido. Era o único objeto que ela carregava do pai de Pedro, um homem que ele mal lembrava, apenas um vulto gentil em fotos antigas. Dona Clara o acariciava em momentos de aflição, seus dedos traçando o contorno da pedra como se buscasse um conforto tangível.

Um suor frio brotou na testa de Pedro. A ideia era monstruosa. Ele amava a mãe. Mas amava Elias também. E a dor do Tio Alberto, a preocupação nos olhos da mãe… Elias prometera que tudo ficaria bem. Que o Tio Alberto voltaria a rir, a contar histórias.

As horas se arrastaram. O sol se pôs, pintando o céu de tons alaranjados e roxos. O cheiro de jasmim invadiu o quintal. Lá fora, os vizinhos conversavam em tom baixo. A casa dos Santos parecia um casulo isolado, guardando um segredo sombrio.

Pedro foi para a cozinha. Dona Clara estava lavando a louça, a água quente embaçando os vidros da janela. Ela não usava o medalhão naquele momento, guardava-o em uma caixinha na cômoda do quarto. Pedro observou-a, a curva elegante de suas costas, o jeito como ela cantava baixinho uma melodia que ele não reconhecia.

“Mãe?”, chamou, a voz esganiçada.

Ela se virou, um sorriso cansado iluminando seu rosto. “Oi, meu amor. Quer água?”

Pedro balançou a cabeça. “Tio Alberto… ele vai ficar bem?”

Dona Clara suspirou, o sorriso se desfazendo. “A gente espera que sim, meu filho. A gente reza.”

Elias estava ali, um peso invisível em seu ombro. “Você sabe o que fazer”, ele incentivou.

Pedro sentiu o estômago revirar. Ele sabia que o medalhão estava lá, esperando. Ele também sabia que, se pegasse, uma parte dele se quebraria. Mas a imagem do Tio Alberto tossindo, fraco demais para levantar da cama, o atormentava. E a promessa de Elias… A promessa de que tudo ficaria bem.

Ele se levantou, as pernas bambas. “Vou escovar os dentes, mãe.”

Dona Clara assentiu, voltando à sua tarefa. Pedro subiu as escadas, o coração batendo descompassado contra as costelas. A porta do quarto estava entreaberta. O quarto estava escuro, apenas a fraca luz da lua penetrando pela fresta das cortinas. A cômoda parecia um monstro adormecido.

Ele se aproximou, os dedos tremendo ao alcançar a maçaneta da gaveta. Elias estava ali, uma presença sufocante, um sopro gélido em sua pele. A respiração de Pedro falhava. O medalhão estava ali, reluzindo fracamente sob a luz lunar. Ele sabia que, se o pegasse, ele e a mãe jamais seriam os mesmos. E que Elias, o amigo que tudo compreendia, se tornaria o senhor de um preço que ele não tinha certeza se estava disposto a pagar, nem se era capaz de suportar as consequências. A gaveta rangeu suavemente ao abrir.


Por: João Pedro Silveira

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