Um viajante perdido em uma floresta onde os árvores se movem e observam.
O Silêncio Verde
A poeira da estrada de terra fina ainda se grudava em suas botas, mas a trilha já se tornara densa, um emaranhado de cipós e troncos que pareciam conspirar para engoli-lo. João Pedro se afastara da picada há horas, atraído por um canto de pássaro desconhecido, uma melodia que parecia sussurrada diretamente em sua alma. Agora, o canto se calara, e o sol, antes um guia confiável, se escondia atrás de um dossel de folhas tão espesso que a luz mal ousava penetrar. O cheiro era de terra úmida, de folhas em decomposição, mas sob ele, algo mais antigo, algo vibrante e quase insuportável.
Ele chamou por sua irmã, Ana. Sua voz, antes forte, soava fina e frágil, engolida pela vegetação. Ana, sua Ana, com seus cabelos cacheados e seu riso fácil, que ele prometera trazer as mais belas orquídeas que a mata escondia. Agora, o medo gelava suas entranhas, um pressentimento sinistro que o sufocava mais do que o ar rarefeito.
As árvores. Ele não conseguia descrever. Não era apenas a imensidão, os troncos grossos e retorcidos, as raízes que se espalhavam como veias abertas. Era a… presença. Os galhos se moviam sem o sopro do vento, as folhas sussurravam em uma língua que ele não compreendia, mas que lhe parecia intimamente familiar, como um eco de sonhos esquecidos. Ele sentia os olhares, invisíveis, mas pesados, pousando sobre ele. Não era hostilidade, mas uma curiosidade antiga, uma observação paciente que o fazia sentir-se um inseto prestes a ser estudado.
Tentou refazer seus passos, mas a mata parecia se reconfigurar a cada curva, a cada tentativa de orientação. O caminho de volta se desvanecia, como um pensamento fugaz. Sentou-se no chão úmido, o coração batendo descompassado contra as costelas. A noite se aproximava, trazendo consigo um crepúsculo de tons verdes e roxos, uma beleza assustadora. Ele podia sentir o pulso da floresta, o batimento lento e profundo que o envolvia.
Lembrou-se da avó, Dona Lurdes, contando histórias sobre a mata encantada, sobre as árvores que guardavam segredos ancestrais, sobre os espíritos que habitavam o verde. Ele sempre ria, chamando de bobagem de velho. Agora, as palavras da avó ressoavam em sua mente, carregadas de um peso inimaginável.
Um leve tremor percorreu o solo. Uma árvore, com casca que lembrava a pele enrugada de um ancião, inclinou-se lentamente em sua direção. As folhas em seus galhos se agitavam suavemente, como mãos acenando. Não havia medo nela, apenas uma serenidade profunda, um convite silencioso. João Pedro, vencido pela exaustão e pela surrealidade do momento, estendeu a mão. A casca era áspera, mas estranhamente quente.
No silêncio que se seguiu, ele sentiu algo mais do que a textura da madeira. Sentiu um influxo, um conhecimento que não vinha de seus próprios pensamentos. Imagens borradas de eras passadas, de chuvas torrenciais e de sóis escaldantes, de criaturas que ele jamais vira. E a sensação de que a floresta, em sua imensidão silenciosa, não o havia perdido, mas talvez, o tivesse encontrado. E o que ela buscava nele, agora, era um mistério que pairava no ar, denso e verde. Ele apertou a casca rugosa, sentindo-se, pela primeira vez, verdadeiramente parte daquele mundo que o observava.
Por: Catarina de Assis Mendonça

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