Um porão de uma casa antiga onde a origem de um mal misterioso é um segredo guardado por um espírito.
O Cheiro de Terra Virgem
O porão da casa da Dona Cotinha era um universo à parte. Não era um desses porões de filme de terror, com teias de aranha gigantes e fantasmas de lençóis brancos. Era, antes de tudo, o cheiro. Um cheiro denso, de terra úmida misturada com o aroma pungente de guardados antigos: naftalina, papel amarelado, e algo mais, algo mineral, quase metálico, que picava o nariz e fazia os olhos lacrimejarem se a gente ficasse tempo demais ali embaixo.
Ana Clara, com seus vinte e poucos anos, descendente direta de Dona Cotinha por parte de mãe, nunca entendera de onde vinha esse cheiro. Dona Cotinha, que falava mais com os pássaros que com os humanos e passava os dias bordando flores em panos de prato, dizia que era a “memória da terra” que ali residia. Para Ana Clara, que morava na correria de São Paulo, a memória da terra era algo abstrato, uma lenda sussurrada em dias de chuva forte.
Mas o tempo, implacável, trouxe a notícia da morte de Dona Cotinha. E com ela, a tarefa ingrata de desocupar a casa, um casarão colonial no interior paulista que cheirava a passado e a mofo. Ana Clara, desiludida com a vida na metrópole, aceitou a missão com um misto de apreensão e curiosidade. O porão, claro, era o último reduto a ser explorado.
A luz fraca da lanterna mal espantava a escuridão. Caixas empilhadas em ângulos precários, móveis cobertos por panos desbotados, e no canto mais escuro, uma velha cômoda de madeira escura, com puxadores de latão polido pelo uso. Foi ali que Ana Clara encontrou o diário. Capa de couro gasta, páginas finas e um nome rabiscado com a caligrafia elegante de sua bisavó: “Elisa”.
Elisa, um nome que Ana Clara nunca ouvira. A bisavó paterna, perdida nas brumas da história familiar. Folheou as páginas com cuidado. Não eram histórias de amor ou de revoltas políticas. Eram relatos crus, quase febris, sobre a terra. Sobre uma seca implacável que assolou a região anos atrás. Sobre uma promessa feita para que a chuva voltasse. E sobre o preço.
“A terra clama por sacrifício”, escrevia Elisa, a tinta quase escorrendo em alguns trechos. “E eu, em minha desgraça, atendi ao seu apelo. Enterrei a dor. Enterrei a esperança. Enterrei… o que era mais precioso.”
Ana Clara sentiu um arrepio que nada tinha a ver com a temperatura do porão. A promessa. O preço. O cheiro de terra virgem que ela sentia ali, agora lhe parecia algo mais sinistro. Uma memória palpável, impregnada nas paredes de pedra.
No fundo da cômoda, escondido em um compartimento secreto que Ana Clara descobriu por acaso, havia uma pequena caixa de madeira entalhada. Dentro, um punhado de terra escura, estranhamente brilhante, e um pequeno objeto de prata oxidada, com o formato de uma lágrima. Ao tocar a terra, Ana Clara sentiu uma vertigem, um sussurro distante que parecia emanar de todos os cantos do porão ao mesmo tempo. Era a voz de Elisa, ela sabia. Não era uma voz furiosa, mas uma voz carregada de uma melancolia profunda, quase resignada. Uma voz que falava de um fardo que ela carregava sozinha, por gerações.
Naquele momento, o mistério do mal que emanava do porão não era mais um segredo guardado por um espírito. Era um segredo vivo, pulsante, que se alimentava da própria terra, da história não contada, do silêncio dos vivos. Ana Clara fechou a caixa com as mãos trêmulas. Ela não sabia exatamente o que era aquele mal, ou como combatê-lo. Mas sentia, com uma certeza avassaladora, que ele estava ali, adormecido sob o peso dos anos, à espera de quem ousasse desenterrar a memória da terra, e o seu preço. O cheiro, antes apenas um incômodo, agora era um convite. Um convite para o abismo.
Por: Catarina de Assis Mendonça

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