Um parque ecológico onde os animais exibem comportamentos assustadores e não naturais.
O Cheiro de Terra Molhada e Medo
O sol da manhã ainda timidamente acariciava as copas das mangueiras centenárias, mas o parque ecológico “Araras Azuis” já parecia engolido por um silêncio denso, pesado. Clara, com seus quinze anos e o cheiro persistente de protetor solar na pele, segurava a mão do irmão mais novo, Léo, um turbilhão de sete anos que, pela primeira vez, parecia contido. Eles estavam ali a contragosto, a pedido da mãe, dona de uma loja de artesanato na praça central de São Gonçalo do Rio Abaixo. “Um passeio para arejar a cabeça”, ela dissera, com aquela confiança materna que raramente funcionava.
O que a mãe não sabia, ou talvez fingisse não saber, era que o “Araras Azuis” andava diferente. Os boatos corriam nas esquinas empoeiradas do bairro: o macaco-prego que antes roubava mangas agora encarava os visitantes com olhos vazios e desferia uivos que pareciam gritos de desespero. As araras, outrora exibindo seus azuis vibrantes em voos coreografados, agora se amontoavam em galhos, imóveis, como se esperassem algo. E os patos do lago… ah, os patos eram os piores.
Clara sentiu um arrepio quando um desses patos, um ser outrora patético e dócil, emergiu da água com um borbulhar que destoava do habitual. Seus olhos, antes negros e opacos, pareciam agora incandescentes, fixos neles com uma inteligência fria e perturbadora. Ele não grasnou. Apenas permaneceu ali, a poucos metros, o bico levemente aberto, como se a cada momento pudesse proferir algo que eles não estivessem preparados para ouvir. Léo apertou a mão dela com força, os nós dos dedos brancos.
“Não olha, Léo”, sussurrou Clara, tentando soar mais firme do que se sentia. Mas seus olhos, teimosamente, fixavam-se naquele animal bizarro. Era como olhar para um espelho distorcido da própria natureza.
Passaram pela área dos saguis. Em vez da algazarra usual, apenas um silêncio espectral pairava sobre os cipós. Um deles, em um galho baixo, parecia trançar uma folha com movimentos robóticos, seus dedos ágeis desempenhando uma tarefa sem sentido aparente. Quando Clara se aproximou um pouco mais, ele ergueu a cabeça. Aquele olhar, vazio e ao mesmo tempo penetrante, fez um nó se formar em sua garganta. Não era medo de ser mordida. Era algo mais profundo, uma sensação de que algo intrinsecamente certo havia se corrompido.
O calor úmido da tarde brasileira parecia prender o ar. O cheiro de terra molhada, geralmente reconfortante, agora tinha um quê de mofo, de algo em decomposição. Tentaram se distrair com as flores, os ipês que teimavam em colorir o cenário, mas até elas pareciam desbotadas sob aquela atmosfera opressora.
“Pra que a gente veio mesmo, Clara?”, perguntou Léo, a voz embargada.
Clara suspirou. Ela não tinha resposta. A mãe insistira tanto. Queria que eles se conectassem com a natureza, com a fauna local. Mas que natureza era aquela? Que fauna era aquela? Pareciam atores representando um papel grotesco, movidos por um roteiro incompreendido.
Decidiram ir em direção ao lago principal, onde um pequeno quiosque vendia água de coco. Talvez um pouco de doçura natural pudesse dissipar aquela sensação sinistra. No caminho, viram um grupo de jacarés, que geralmente se aqueciam preguiçosamente à beira da água. Agora, estavam todos alinhados, as cabeças erguidas, os olhos fixos em um ponto além da margem. Não havia agressividade, nem preguiça. Apenas uma quietude antinatural, como estátuas esperando um comando invisível.
Um velho guarda-parque, o Seu Joaquim, com o rosto enrugado pelo sol e pela preocupação, estava perto do quiosque, limpando um regador com um pano. Clara sentiu um impulso de perguntar.
“Seu Joaquim”, começou ela, a voz hesitando. “Por que os animais estão… assim?”
Ele levantou os olhos, e Clara viu neles um reflexo da mesma apreensão que sentia. “Ah, menina”, disse ele, a voz um sussurro rouco. “Ninguém sabe. Começou devagarinho. Um esquilo estranho, um pássaro sem canto. Agora… agora tá difícil de entender. Parece que eles tão escutando alguma coisa que a gente não escuta. Alguma coisa que tá chamando eles pra outro lugar.”
Ele olhou para os jacarés alinhados, depois para o lago onde os patos continuavam a emergir com seus olhos brilhantes. “Eles não tão assustados, sabe? Pior. Eles parecem… hipnotizados. Como se tivessem achado um novo propósito.”
Clara sentiu um frio percorrer sua espinha. Um novo propósito. Que propósito poderia ser esse, que transformava a placidez de um parque ecológico em um palco de existências sombrias e desorientadas? Léo puxou sua mão com mais força. O sol começava a se inclinar para o poente, tingindo o céu de um laranja doentio. A terra molhada exalava um cheiro cada vez mais penetrante. Eles precisavam ir embora. Mas Clara sabia, com uma certeza gelada, que aquela imagem, aquele silêncio carregado de um medo sem nome, a seguiria. E ela se perguntava se, algum dia, seria capaz de voltar a ver um parque ecológico da mesma forma. Ou se a semente daquela inquietação estranha não havia sido plantada também dentro dela, à espera de seu próprio propósito macabro.
Por: João Pedro Silveira

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