Um lago com a lenda de um afogamento e aparições de uma figura emergindo da água.

Um lago com a lenda de um afogamento e aparições de uma figura emergindo da água.

O Silêncio das Águas

O lago não tinha nome oficial. Para nós, moradores do Beco da Lua, era apenas “o lago”. Uma mancha azul escura na paisagem terrena de Ouricuri, cercado por mato alto e umas poucas figueiras retorcidas que, na época de chuva, espalhavam seus galhos como dedos ossudos contra o céu que chorava. A lenda, contada em sussurros sob a luz fraca dos postes precários, era de Cecília. Uma moça de cabelos escuros e pele de lua, que se atirou ali um dia. Dizia-se que o coração dela não suportara a partida do noivo, que fora buscar fortuna longe, prometendo voltar em breve. E a espera, diziam, a dilacerara até que a única saída fosse o abraço gelado do lago.

Maria Luiza, por outro lado, era teimosia pura. Com seus dezessete anos, era um furacão de cabelos revoltos e sardas espalhadas pelo nariz, a contradição viva de tanta melancolia pairando sobre as margens. Ela não acreditava em fantasmas. Acreditava em cães vadios que se afogavam nas cheias, em lixo jogado sem critério que boiava como mortos-vivos, em piranhas famintas que às vezes apareciam no verão. Mas a morte de Cecília, o mistério daquele desaparecimento, a solidão que o lago exalava, mexiam com ela. Não por medo, mas por uma estranha empatia.

Seu amigo, Tiago, era o oposto. Mãos grandes e desajeitadas, um coração mole escondido sob a carapaça de quem precisava proteger a si e à irmã mais nova, a pequena Ana, que sofria de uma febre persistente que teimava em não ceder. Ele via em Cecília o eco da própria impotência. Se a tristeza podia levar alguém a um fim tão abrupto, o que restava a ele, que mal conseguia garantir um prato de comida e remédios?

Era nas tardes mornas de novembro que a lenda ganhava mais força. O sol, ainda forte, mas com um quê de despedida, criava reflexos dourados na superfície do lago, distorcendo as nuvens em formas fantasmagóricas. E então, de vez em quando, alguém jurava ver. Uma figura. Emergir lentamente da água.

“Eu vi de novo ontem, Maria Luiza!”, a dona Edite, a vizinha mais fofoqueira, contou com os olhos arregalados, o avental sujo de farinha quase balançando em seu corpo trêmulo. “Parecia ela, o cabelo molhado grudado no rosto, os olhos… ah, aqueles olhos fundos, buscando alguma coisa. Ou alguém.”

Maria Luiza bufou. “É o reflexo da lua, dona Edite. Ou o reflexo do seu copo de cachaça antes de dormir.”

Tiago, ao ouvir a conversa, sentiu um arrepio. Ele nunca tinha visto nada, mas o medo, aos poucos, se infiltrava em sua alma, alimentado pela preocupação constante com Ana. Se algo sobrenatural pudesse levar alguém, talvez pudesse… o quê? Levar Ana para longe da dor? Ou a dor para mais perto dele?

Numa tarde particularly úmida, quando o cheiro de terra molhada pairava no ar e os sapos começavam seu coro noturno, Maria Luiza decidiu ir até o lago sozinha. A curiosidade era uma fera que a roía por dentro. Ela caminhou pela trilha sinuosa, as folhas secas crocando sob seus pés, o som abafado pelo zumbido incessante dos mosquitos. Chegou à beira, onde o mato era mais denso. O sol se punha, tingindo o céu de tons alaranjados e roxos.

Olhou para a água escura. Nada. Apenas o movimento suave das folhas que caíam. Estava prestes a dar as costas quando um murmúrio, baixo e distante, como um lamento suave, atravessou o silêncio. Ela congelou. O coração disparou. E então, lentamente, bem ali, a poucos metros da margem, uma forma começou a se delinear na superfície.

Não era um reflexo. Era algo concreto. Uma silhueta esguia, com algo que pareciam longos cabelos escuros flutuando. A figura ergueu um braço, fino e pálido, em direção à terra. Maria Luiza não sentiu medo. Sentiu uma tristeza avassaladora, profunda, que a envolveu como a névoa fria que começava a se formar sobre o lago. Era o peso da solidão, da espera infinita, da saudade que não morre.

Ela deu um passo à frente, sem perceber. A figura afundou um pouco mais, e então, sumiu. Apenas o leve ondular da água permaneceu.

De volta para casa, Maria Luiza encontrou Tiago sentado na varanda, olhando para a noite que caía, o semblante preocupado. Ana tossia baixinho lá de dentro.

“Você foi no lago?”, perguntou ele, a voz embargada.

Maria Luiza sentou-se ao lado dele, o olhar perdido na escuridão. “Eu… eu acho que vi alguma coisa, Tiago.” Ela hesitou. “Não parecia assustador. Parecia… muito, muito triste.”

Tiago a olhou, a esperança ténue cintilando em seus olhos. “Triste como Ana quando a dor aperta?”

Maria Luiza assentiu lentamente. O lago, com sua lenda silenciosa, parecia agora um reflexo não de um fantasma, mas de todas as dores não ditas, de todas as ausências que marcavam a vida naquele canto esquecido do mundo. E a figura emergindo das águas, quem sabe, não buscava apenas descanso, mas um eco de vida, uma conexão que a lembrasse de que um dia existira, que fora amada, que a saudade podia ser tão real quanto a água que a engolira.

Naquela noite, Ana dormiu um pouco mais tranquila. E Maria Luiza, olhando para a lua que começava a se espreguiçar no céu, sentiu um vazio estranho, mas também uma compreensão silenciosa. O lago guardava segredos que nem sempre morriam, apenas flutuavam, esperando um olhar que pudesse, talvez, entender a profundidade da sua dor. E ela, que sempre buscara a lógica, de repente se viu confrontada com a verdade incontestável de que algumas existências, mesmo na morte, clamavam por uma presença. E o lago, esse lago sem nome, era o palco de um drama que continuava a se desenrolar, um sussurro nas margens da realidade que invitava a um mergulho ainda mais profundo.


Por: Isabela Fernandes Couto

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