Um jornalista investigativo descobre ligações entre corpos encontrados em diferentes estados, todos na mata.
O Lamento da Mata
A poeira fina subia do chão batido a cada passo hesitante de Jonas. O ar pesado, úmido e impregnado do cheiro pungente de terra molhada e folhas em decomposição, apertava seus pulmões. A mata, em pleno Cerrado goiano, era um emaranhado denso de troncos retorcidos e um verde que beirava o opressivo. Ali, escondido entre as samambaias e os galhos secos, jazia mais um corpo.
Não era o primeiro. E, ironicamente, Jonas sabia que não seria o último. Há meses, a repetição macabra o assombrava. A primeira vez foi um achado casual, um corpo em avançado estado de decomposição, descoberto por um casal de turistas perdidos perto de uma cachoeira em Minas. Pouco tempo depois, uma notícia discreta sobre outro corpo, encontrado numa área de preservação ambiental no Mato Grosso do Sul. E agora, aqui, em Goiás. A ligação, a princípio, parecia tênue, quase uma coincidência cruel do destino. Mas para Jonas, um jornalista investigativo que prosperava no fio da navalha entre a verdade e o sensacionalismo, a coincidência era um convite irresistível.
Ele agachou-se, a câmera profissional em punho, mas os dedos tremiam levemente. O perito, Seu Cléber, um homem de poucas palavras e olhar cansado, assentiu com a cabeça. “Mais um, doutor Jonas. Parece que a terra está querendo vomitar eles.” A ironia amarga de Seu Cléber não aliviava a sensação de sufocamento. Jonas fotografava, buscando ângulos que capturassem a desolação, a brutalidade disfarçada pela natureza que, indiferente, seguia seu curso. A pele do corpo, exposta ao sol por dias, estava escura e curtida, quase como a casca de uma árvore antiga. Havia marcas, sutis para quem não soubesse o que procurar.
No seu cubículo apertado na redação, em Brasília, o cheiro de café requentado e a iluminação fluorescente eram o oposto da imensidão sufocante da mata. Jonas passava noites em claro, as pilhas de relatórios policiais, laudos de autópsia e recortes de jornal espalhadas pela mesa. Ele rabiscava mapas, traçava linhas imaginárias entre os estados, buscava padrões. Os corpos eram todos homens, na faixa dos 30-40 anos, sem identificação aparente, com marcas de violência não explícita que a decomposição dificultava de precisar. A causa da morte, nos laudos, variava entre “asfixia” e “traumatismo craniano”, mas a sutileza das lesões sugeria algo mais calculado do que um crime passional aleatório.
A primeira pessoa a dar um fio solto foi Dona Lurdes, uma senhora miúda e de voz roca, que vendia pães de queijo na beira da estrada em Goiás, perto de onde o último corpo fora encontrado. “Ah, doutor”, ela disse, os olhos marejados, enrolando um pão quente em papel. “O homem que apareceu sumiu. Vivia de favor nas casas dos sitiantes, dizia que estava procurando trabalho. Tinha uns olhos que pareciam que choravam por dentro.” Jonas sentiu um arrepio. Os olhos que choravam por dentro. Ele anotou. Em Minas, um trabalhador rural desempregado, de passagem pela cidade. No Mato Grosso do Sul, um motorista de caminhão autônomo, desaparecido misteriosamente. Homens à margem, invisíveis, buscando um recomeço, uma vida melhor.
O dilema moral começava a pesar sobre Jonas. Ele estava expondo vidas esquecidas, almas perdidas que a sociedade prefere ignorar. Mas, ao expor a verdade, corria o risco de ser apenas mais um a usar suas tragédias para impulsionar uma manchete. Seu editor, um homem pragmático chamado Ricardo, alertava: “Jonas, precisamos de provas. Ligação direta. Senão, é só mais uma história de terror que o povo esquece amanhã.”
A virada veio de um antigo contato, um policial federal aposentado, conhecido por sua discrição e vasto conhecimento dos meandros do crime organizado. “Jonas”, a voz rouca soou no telefone, carregada de um cansaço profundo. “Não são corpos aleatórios. São um recado. Uma limpeza. E você está pisando em terreno perigoso.” O aposentado, que pediu para não ser nomeado, falou sobre rotas de tráfico humano e financeiro que se disfarçavam sob o manto da legalidade, e como alguns indivíduos que se tornavam inconvenientes eram “descartados” de forma silenciosa e brutal. A mata, vasta e impenetrável, era o cenário perfeito para apagar rastros.
A noite anterior à publicação da reportagem, Jonas sentiu o peso do mundo em seus ombros. As linhas no mapa se tornavam mais claras, mas as faces dos mortos, os olhos que choravam por dentro, eram um borrão de tristeza e desespero. Ele imaginou as famílias que, talvez, nunca soubessem o destino de seus entes queridos, que continuavam a buscá-los em vão. A floresta, que a princípio lhe pareceu apenas um cenário, agora ecoava com os lamentos silenciosos dos que ali jaziam.
No dia seguinte, a reportagem saiu. “O Eco Silencioso da Mata: Corpos em Estados Distintos Revelam Rede Macabra.” As reações foram variadas: indignação, medo, indiferença. Mas o pedido de exoneração de Jonas, entregue em mãos a Ricardo, não foi por causa da repercussão. Foi pela certeza incômoda de que a verdade, mesmo revelada, era apenas a ponta de um iceberg sombrio. Ele deixou a redação, o sol da manhã atingindo seus olhos, e olhou para a vastidão cinzenta da cidade. Sabia que sua busca pela verdade, muitas vezes, o empurrava para um vazio ainda maior, onde as perguntas eram mais pungentes que as respostas, e a mata continuava a guardar seus segredos, esperando o próximo lamento.
Por: Isabela Fernandes Couto

Deixe um comentário