Um historiador descobre que um artefato amaldiçoado encontrado em uma escavação é o catalisador para assassinatos brutais que se repetem em ciclos geracionais, manifestando-se através de possessões.

Um historiador descobre que um artefato amaldiçoado encontrado em uma escavação é o catalisador para assassinatos brutais que se repetem em ciclos geracionais, manifestando-se através de possessões.

O Sopro de Érebo

O ar empoeirado da escavação, um bafo antigo de terra e segredos, grudou-se em Samuel como uma segunda pele. Ali, sob o sol impiedoso da Grécia, ele encontrou-o. Não era ouro, nem bronze polido, mas uma obsidiana negra como a noite mais profunda, esculpida com símbolos arcaicos que, de alguma forma, falavam diretamente à sua alma fatigada. Samuel, o historiador renomado, sentiu um arrepio que nada tinha a ver com a brisa marinha. Chamou-o de “O Olho de Érebo”.

De volta ao seu estudo abarrotado de livros e mapas, o artefato repousava sobre sua mesa, um ponto sombrio que parecia sugar a luz do ambiente. As primeiras noites foram de insônia inquieta, povoada por sussurros indistintos e visões fugazes de rostos contorcidos em agonia. Samuel, um homem de ciência, tentou racionalizar. O estresse da expedição, a privação do sono. Mas a obsidiana parecia observá-lo, seus reflexos distorcidos guardando uma malevolência palpável.

A obsessão científica de Samuel o levou a mergulhar nos arquivos, nos registros históricos empoeirados. E ali, a verdade sombria começou a se desdobrar. Um padrão. Assassinatos brutais, sem motivo aparente, surgiam em intervalos regulares, cada vez que um artefato semelhante ao seu aparecia em registros. Uma vila grega no século IV a.C., dizimada por um frenesi de violência inexplicável. Um monastério na Idade Média, onde monges se voltaram uns contra os outros em um banho de sangue. Um pequeno vilarejo na Escócia no século XIX, onde a comunidade se auto-imolou em um ritual macabro. Sempre o mesmo ciclo, sempre a mesma brutalidade sem sentido.

A ligação era inegável, aterradora. O Olho de Érebo não era um objeto de arte, mas um catalisador. Uma âncora para algo antigo e faminto. Uma possessão. Samuel leu sobre a entidade, o “Sopro de Érebo”, uma força primária de caos e destruição, aprisionada em objetos de obsidiana por antigos sacerdotes em uma tentativa desesperada de contê-la. Mas o aprisionamento era temporário. Sempre que o artefato era perturbado, quando sua energia era evocada, o Sopro se libertava, buscando hospedeiros, alimentando-se da escuridão latente na alma humana, e desencadeando um ciclo de violência incontrolável.

A cada ciclo, um hospedeiro diferente, a mesma escuridão manifestada. A ciência de Samuel tremeu diante da realidade sobrenatural. Ele era o próximo. Sentiu a pressão sutil em sua mente, as tentações sussurradas de poder e descontrole. As noites se tornaram um campo de batalha. Samuel lutava contra si mesmo, contra a sombra que se infiltrava em seus pensamentos, em seus desejos. Via reflexos no Olho que não eram os seus, olhos vermelhos e famintos que prometiam poder, que zombavam de sua sanidade.

Desesperado, Samuel dedicou-se a um último e frenético esforço. Mergulhou em textos ocultos, em lendas esquecidas, buscando uma forma de quebrar o ciclo. Descobriu que a única maneira de selar o Sopro de Érebo era através de um ritual de sacrifício, não de sangue, mas de intenção, de um ato de renúncia absoluta à própria vontade, entregando a própria essência para apagar a existência do Sopro.

A última página que Samuel leu estava manchada. O ritual exigia que o artefato fosse devolvido à escuridão de onde veio, em um local de poder ancestral, e que o guardião fosse completamente consumido pela própria força que buscava aniquilar. Samuel olhou para o Olho de Érebo, sua superfície escura refletindo um Samuel distorcido, com um sorriso que não era seu. Ele sabia o que precisava fazer. O Sopro de Érebo não encontraria mais um hospedeiro em sua linhagem. Mas o custo seria sua própria alma.


Por: Ricardo Soares Guedes

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