Um cemitério antigo com o túmulo de um líder local que, dizem, ainda aparece para vigiar.

Um cemitério antigo com o túmulo de um líder local que, dizem, ainda aparece para vigiar.

O Sussurro de Pedra

O crepúsculo em Vila da Fartura não chegava de mansinho, mas se esparramava preguiçoso pelas ruas de paralelepípedos, tingindo as casas caiadas e as mangueiras centenárias em tons alaranjados e arroxeados. Era o momento em que o pó do dia se assentava, e os moradores saíam para as varandas, para a prosa miúda e o cheiro de café coado que pairava no ar. Mas para Dona Eulália, o crepúsculo era um convite. Um convite para o outro lado da ponte de pedra, onde o silêncio tinha um peso diferente, onde as histórias se gravavam em mármore frio.

O cemitério era antigo, tão antigo que suas cercas de ferro se curvavam sob o peso do tempo, e as lajes, desgastadas pela chuva e pelo sol, contavam mais sobre as gerações que ali repousavam do que as poucas inscrições ainda legíveis. No centro, erguia-se imponente o mausoléu de Seu Antero. Um homem que fora a espinha dorsal de Vila da Fartura em tempos difíceis, um líder que tecia a vida da comunidade com mãos firmes e olhar perspicaz. Diziam que Seu Antero não descansava em paz. Diziam que, nas noites de lua cheia, sua figura alta, envolta num casaco escuro, podia ser vista rondando os portões, uma vigilância silenciosa que trazia tanto conforto quanto um arrepio na espinha.

Dona Eulália, viúva há trinta anos, era uma dessas figuras que pareciam ancoradas na própria Vila. Seus cabelos brancos, presos em um coque apertado, eram o reflexo das memórias que guardava. Seu Antero, embora nunca tivesse sido um parente próximo, era uma presença constante em sua vida. Ele tinha dado a mão ao pai dela em um empréstimo para salvar a lavoura, tinha intermediado a disputa por terras que ameaçava dividir a família vizinha. Ele era, em essência, o guardião anônimo de muitos dos momentos que moldaram o destino daquelas famílias.

Naquela noite, o ar estava pesado, com a promessa de chuva que não vinha. Dona Eulália, com sua bengala firme, percorreu o caminho familiar. As estrelas começavam a pontilhar o céu, e a única luz vinha de lampiões distantes, criando sombras dançantes entre as cruzes e as anjos de pedra. Chegou à frente do túmulo de Seu Antero. O mármore era liso, polido pelo tempo e pelos dedos de admiradores e curiosos. Havia um pequeno vaso com margaridas brancas, frescas. Alguém estivera ali antes dela.

“Seu Antero”, murmurou ela, a voz embargada pela emoção. “Mais um ano se foi. As coisas aqui embaixo não andam fáceis.”

Ela sentou-se em um banco de ferro batido, que rangia sob seu peso. O vento soprava, trazendo o cheiro úmido da terra e o farfalhar seco das folhas secas. Ela se lembrou da época em que Seu Antero era vivo. A feira aos domingos, o burburinho das conversas, a sensação de comunidade forte, inabalável. Agora, muitos dos jovens partiam em busca de oportunidades, e a Vila parecia encolher sob o peso da saudade.

De repente, um movimento sutil no canto do olho. Uma sombra mais densa, que parecia se desprender de um arbusto de jasmim. Dona Eulália ergueu os olhos, o coração disparando em um ritmo inesperado. Era uma figura alta, esguia, que parecia se mover com uma lentidão deliberada. Não era o vento. As folhas estavam imóveis.

Ela não sentiu medo. Sentiu… familiaridade. Uma estranha sensação de que aquela presença não era ameaçadora, mas sim de observação. A figura permaneceu por um instante, como que perscrutando algo na escuridão, antes de se dissipar, não como uma pessoa que se afasta, mas como uma névoa que é levada pelo vento, sem deixar rastros.

Dona Eulália respirou fundo, o cheiro de jasmim mais intenso agora. Ela sabia que muitos diriam que era a imaginação, a sugestão. Mas em Vila da Fartura, onde as histórias eram tecidas tão firmemente quanto a vida cotidiana, as lendas tinham um jeito peculiar de se manifestar.

Ela se levantou, ajustando o xale sobre os ombros. O crepúsculo agora era noite. As margaridas no vaso pareciam brilhar sob a fraca luz das estrelas. Ela não buscou mais o que viu. Ela apenas sentiu a responsabilidade que recaía sobre os ombros dos vivos. E, talvez, a responsabilidade de quem, mesmo após a morte, não conseguia abandonar o lugar que ajudara a construir.

Ao cruzar novamente a ponte de pedra, o cheiro de café ainda estava no ar. Mas agora, junto com ele, pairava também um sussurro. Um sussurro de pedra, de memória, e de uma vigilância que talvez nunca cessasse. E Dona Eulália, com o coração mais leve e um pouco mais pesado, sabia que voltaria. Pois o cemitério antigo e o guardião que diziam ainda aparecer eram parte da alma de Vila da Fartura. E ela, assim como muitos outros, fazia parte dessa alma. A pergunta que ecoava em seu silêncio era: até quando essa vigilância duraria? E, mais importante, para quem ela ainda se manifestaria?


Por: Ricardo Soares Guedes

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