O sussurro ouvido na noite que incrimina o inocente.
O Sussurro na Madrugada
A umidade do ar, carregada do cheiro de terra molhada e de galhos de jasmim que insistiam em crescer nas frestas do muro baixo, parecia sufocar os poucos minutos que o sono oferecia a Dona Elza. O ventilador barulhento no canto do quarto, incapaz de ventilar o calor abafado de novembro em Santos, zunia uma melodia rouca e insistente. A cidade adormecida lá fora, apenas pontuada pelo eco distante de um caminhão de lixo, parecia imune à angústia que apertava o peito da velha senhora.
O som veio de baixo, um murmúrio abafado, quase inaudível. Não era o latido assustado do cão do vizinho, nem o gemido da madeira velha do sobrado. Era… uma voz. Hesitante, entrecortada. E, de repente, o nome: “Marcos…”.
Marcos. Seu filho. Aquele que, há menos de um ano, jurara ter mudado, que prometera nunca mais se envolver com as confusões do passado. O coração de Dona Elza disparou, um tambor descompassado contra as costelas. Ela esperou, o corpo tenso, a respiração presa. Outro sussurro, mais claro desta vez, com um toque de desespero: “Não era eu, Marcos. Juro que não fui eu.”
O que mais se seguiu foi uma sequência de ruídos indistintos, como se algo pesado tivesse caído, seguido por um silêncio ainda mais pesado. Dona Elza permaneceu imóvel na cama, o suor frio escorrendo pela testa. O que ela tinha ouvido? Uma briga? Um assalto? E quem era a pessoa que chamava o nome de seu filho?
Na manhã seguinte, o sol penetrava pelas frestas da persiana, pintando listras de luz sobre o assoalho de madeira puída. A rotina, teimosa, tentava se impor. O café preto, o pão com manteiga que ela raramente terminava. Mas a imagem da noite anterior pairava, insistente. A voz… quem era? E por que chamava Marcos?
Ela tentou ligar para ele. O celular de Marcos dava sempre na caixa postal. Era normal. Ele tinha seus horários, seus “projetos”. Mas desta vez, a normalidade pesava como chumbo. No fim da tarde, a campainha soou, estridente. Era a polícia. Dois homens, uniformizados, os rostos sérios, o tipo de seriedade que Dona Elza só via em novelas de crime.
“Dona Elza?”, um deles perguntou, o tom formal. “Precisamos conversar sobre o ocorrido na noite passada, na Rua das Acácias.”
Rua das Acácias. A rua de trás, pouco movimentada, onde o bar do Seu Nélson vendia cerveja gelada e boatos. Onde, segundo a polícia, um assalto teria ocorrido. E um dos suspeitos… era o filho dela.
“Marcos?”, ela balbuciou, a voz embargada. “O que ele fez?”
“Recebemos um relato, senhora”, disse o outro policial, com uma paciência que soava quase impaciente. “Um… um sussurro. Dizia o nome dele. Diziam que ele estava envolvido.”
Dona Elza sentiu o chão sumir sob seus pés. O sussurro. A voz desconhecida chamando o nome de seu filho. Mas para que? Para incriminá-lo? Para desviar a culpa?
Os dias que se seguiram foram um borrão de interrogatórios, advogados pagos com suas economias e a angústia crescente. Marcos apareceu dias depois, pálido, com olheiras profundas e o olhar perdido. Ele negou tudo veementemente, com a paixão de quem é acusado injustamente. Mas o sussurro… a única testemunha, uma vizinha que não quis se identificar, jurava ter ouvido. E a descrição do assaltante batia, de longe, com a feição de Marcos.
Dona Elza olhava para o filho, buscando a verdade em seus olhos. Via o sofrimento, o medo. Mas também via a sombra de algo que ela não conseguia decifrar, um segredo antigo que ele sempre guardara. O sussurro ecoava em sua mente, agora misturado à sua própria voz, perguntando: quem sussurrou? E por quê? Era uma armadilha? Um erro? Ou o passado, insistente, voltava para cobrar um preço? O peso da incerteza, mais que a acusação em si, começava a sufocá-la, como o ar quente da noite de Santos. E ela sabia que, para provar a inocência de Marcos, talvez precisasse desenterrar algo que ele, e talvez ela mesma, preferia manter enterrado.
Por: Isabela Fernandes Couto

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