O Sussurro da Maré Salgada

O Sussurro da Maré Salgada

O cheiro de sal e maresia era o primeiro a saudar o Dr. Elias Viana, um antropólogo de renome, quando desceu do ônibus precário na pequena vila de Ponta do Segredo. O nome, por si só, já atiçava a curiosidade acadêmica que o impulsionava em busca de tesouros folclóricos no Nordeste brasileiro. Elias era um homem de métodos, de cadernos meticulosamente organizados e um ceticismo científico inabalável. Viera para Ponta do Segredo atraído por sussurros, por boatos fragmentados que falavam de uma peculiar devoção dos moradores à maré, uma crença que transcendia a mera observância dos ciclos naturais.

Encontrou abrigo em uma pousada modesta, gerida por uma senhora de cabelos brancos como a espuma do mar, Dona Lurdes. Seus olhos, fundos e marcados pelo sol, pareciam guardar histórias antigas, e seu sorriso, embora acolhedor, carregava uma melancolia profunda. Foi ela quem, na primeira noite, entre um acarajé e outro, introduziu Elias ao cerne do folclore local.

“Aqui, doutor”, disse Dona Lurdes, com a voz baixa, quase um murmúrio contra o ruído das ondas distantes, “a maré não é só água que entra e sai. Ela fala. Ela traz. E ela leva.”

Elias, com sua gravata impecável e o laptop sempre à mão, anotou com interesse profissional, mas sem desviar o olhar para a janela escura.

“Mensagens?”, perguntou, com a ponta de uma sobrancelha erguida.

Dona Lurdes assentiu, o olhar fixo no horizonte onde o mar se fundia com o céu. “Mensagens. Dos que partiram e não encontraram a paz. Dizem que, em noites de lua cheia, quando a maré sobe mais alto, eles aparecem. Almas perdidas que a água traz à tona, com segredos que o próprio oceano tentou afogar.”

Nos dias seguintes, Elias mergulhou no cotidiano da vila. Conversou com pescadores que falavam da maré como de uma velha amiga, ou inimiga, dependendo do dia. Ouvia histórias de objetos estranhos encontrados na areia, trazidos pelas ondas, que pareciam sussurrar lendas antigas. Viu a veneração com que olhavam para o mar em suas marés mais intensas, um misto de respeito, temor e expectativa.

Mas eram as aparições que mais o intrigavam. Os moradores descreviam figuras etéreas emergindo da água, silhuetas que se dissipavam tão rapidamente quanto surgiam, deixando apenas um rastro de frio e um sentimento de angústia. Falavam de segredos, de crimes não resolvidos, de amores perdidos que o tempo não curou, confiados à vastidão salgada.

Elias começou a frequentar a praia nas horas de maré alta, armado com seu gravador e a câmera fotográfica. Esperava capturar algum vestígio, alguma anomalia que pudesse ser explicada racionalmente. Uma corrente forte, um reflexo incomum da lua, algo que pudesse desmistificar as crenças da vila.

Uma noite, a lua cheia pairava no céu como um grande olho prateado, banhando a areia em um clarão fantasmagórico. A maré, poderosa e insistente, avançava sobre a terra. Elias sentiu um arrepio percorrer sua espinha, não de frio, mas de uma expectativa palpável. O som das ondas parecia ganhar uma cadência peculiar, um ritmo que parecia ecoar vozes distantes.

De repente, no limite da água, onde as ondas quebravam em espumas luminosas, ele a viu. Não era uma alucinação. Era uma forma translúcida, indefinida, movendo-se na água. Não tinha traços claros, mas emanava uma aura de tristeza profunda. Parecia se aproximar, como se quisesse falar. Elias, com o coração acelerado, levantou a câmera.

A figura, em um movimento quase imperceptível, estendeu um braço em direção à praia. E na palma da mão, Elias viu algo brilhar. Era um objeto pequeno, escuro, que a onda trouxe e deixou a seus pés. Ele hesitou por um instante, o ceticismo lutando contra a evidência que se apresentava.

Com mãos trêmulas, ele se abaixou e pegou o objeto. Era um pingente antigo, feito de prata oxidada, com um desenho intricado de um barco à deriva. Ao tocá-lo, sentiu uma corrente fria percorrer seu braço, e uma imagem fugaz, mas vívida, tomou conta de sua mente: um naufrágio, um homem desesperado, e um segredo enterrado nas profundezas.

O ceticismo de Elias começou a rachar. A aparição, que até então parecia uma fábula, agora se materializava em um artefato tangível, carregado de uma história não contada. Ele olhou para o mar, que agora recuava lentamente, levando consigo a figura etérea.

Nos dias que se seguiram, Elias, munido do pingente, começou a desvendar o mistério que a maré havia lhe entregado. Entrevistou os moradores mais antigos, comparou histórias, e descobriu, através de registros antigos e boatos esquecidos, a trágica história de um capitão de navio, desaparecido há décadas com sua tripulação e um valioso tesouro. Rumores diziam que ele havia traído seus homens, afundando o navio propositalmente para ficar com a carga toda.

O pingente, segundo Dona Lurdes, pertencia ao capitão. E a aparição, possivelmente sua alma atormentada, trazia a prova de um crime que o mar guardava em seu ventre. A maré, em sua sabedoria ancestral, havia escolhido Elias para trazer à luz um segredo terrível, silenciado pelas águas e pelo tempo.

Elias Viana, o pesquisador cético, deixou Ponta do Segredo com mais perguntas do que respostas, mas com uma nova compreensão sobre as fronteiras entre o folclore e a realidade. Ele havia encontrado mais do que um conto para seu livro. Havia encontrado a voz de uma alma perdida, sussurrada pelo eterno vaivém da maré salgada. E com o pingente em seu bolso, Elias sabia que a maré, em sua infinita complexidade, ainda tinha muitos segredos para revelar.


Por: Marina Rocha Antunes

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