O Sopro Seco da Mata
O suor escorria, picando os olhos de Benedito. A camisa de algodão encardida grudava nas costas, pesada com a umidade do fim de tarde na mata fechada, ali nos confins de Itapuã do Oeste. O ar era denso, impregnado do cheiro doce e enjoativo da terra revolvida pela chuva recente e do aroma metálico de folhas em decomposição. O canto rouco de um pássaro distante rompia o silêncio pesado, um lamento solitário que parecia espelhar a própria alma de Benedito.
Há anos ele se refugiava ali, o mato era seu único companheiro, a caça, uma distração que afastava o peso dos dias sem nome. Hoje, porém, a distração se transformou em um calafrio que percorreu sua espinha, mais gelado que o orvalho que começava a formar nas samambaias.
Ao se aproximar de um pequeno igarapé, onde a água murmurava preguiçosamente, seus olhos captaram algo incomum sob um monte de folhas secas e galhos. Uma forma pálida, dura, que não pertencia à paisagem marrom e verde. Curioso, ele se abaixou, o coração martelando no peito. Com a ponta da sua bota surrada, afastou as folhas.
E então os viu. Ossos. Brancos, esbranquiçados pelo tempo e pela umidade, um conjunto de ossos humanos em estado avançado de decomposição. Um fêmur proeminente, costelas quebradas como galhos secos, a curva de um crânio incompleto emergindo da terra. O cheiro, antes sutil, agora se intensificava, um odor de podridão que se misturava à fragrância terrena da floresta.
Benedito recuou instintivamente, o rifle esquecido em suas mãos. A imagem de um corpo em decomposição assombrou sua mente, a fragilidade da carne exposta de forma tão crua. Ele, que lidava com a morte dos animais com uma familiaridade quase indiferente, sentiu um nó na garganta, uma pontada de horror que ia além do medo.
Levou quase uma hora para chegar à delegacia da cidade vizinha, um prédio simples de alvenaria com janelas gradeadas, onde o ventilador de teto girava lentamente, incapaz de afastar o calor abafado. O delegado, um homem corpulento com um bigode grisalho e um olhar cansado, ouviu a história de Benedito com uma expressão de tédio quase palpável.
“Ossos, Benedito? Na mata?”, ele disse, esfregando a testa. “Quantas vezes eu te disse para não trazer problema para cá? Essa mata já tem seus segredos, não precisa você inventar outros.”
Benedito insistiu, descrevendo a cena com a voz embargada pela emoção. Falou da localização exata, dos detalhes que o chocaram. Mas o delegado parecia surdo.
“Já passou muito tempo, Benedito. Se fosse assassinato, a polícia já teria achado. Provavelmente foi um descarte antigo, de alguém que morreu por aí e os bichos fizeram o resto. Ou talvez algum animal mais velho que se machucou e foi apodrecer lá. A mata come tudo, homem. Essa é a lei dela.” Ele bateu suavemente na mesa com os dedos grossos. “Olha, o que te aconselho é esquecer isso. Volta para sua caça. E deixa a polícia cuidar do que é da polícia.”
Ao sair da delegacia, o sol já se escondia atrás das montanhas, tingindo o céu de um laranja avermelhado intenso. O ar fresco da noite trazia alívio, mas o peso no peito de Benedito não diminuía. A indiferença do delegado era quase tão perturbadora quanto os ossos que encontrara. A possibilidade de um crime descartada com tanta facilidade, como se a vida ali, nas margens da sociedade, não tivesse valor o suficiente para ser investigada.
Benedito voltou para casa com o corpo moído e a alma inquieta. O silêncio do seu pequeno barraco parecia amplificado. Serviu-se de um copo de pinga, o líquido ardente descendo pela garganta, mas não aplacando a sensação incômoda.
Olhou para a janela escura, a silhueta das árvores recortada contra o céu estrelado. A mata, que sempre foi seu refúgio, agora parecia guarder um segredo sombrio, um enigma silenciado pela lei natural que o delegado tão friamente invocara. E Benedito, sozinho em sua casa simples, sentiu-se um guardião involuntário daquele mistério, um espectador de uma história que a cidade preferia ignorar. A floresta, silenciosa, parecia sussurrar em sua mente, um sopro seco e persistente que o impedia de dormir. A lei da mata, afinal, era mais complexa do que ele imaginava. E talvez, apenas talvez, ele ainda não tivesse visto tudo.
Por: Beatriz Almeida Vianna

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