O Orquidário de Seu Benedito

O Orquidário de Seu Benedito

O cheiro úmido da terra revolvida, misturado ao perfume adocicado e quase inebriante das flores, era a assinatura de Seu Benedito. Não que ele tivesse um jardim de orquídeas exóticas, nem rosas de caules longos e perfeitos. O jardim dele era um pedaço de chão batido nos fundos de uma casa modesta no bairro da Boa Vista, um emaranhado de suculentas teimosas, begônias que pareciam ter desistido de florescer e um pé de erva-cidreira resiliente que teimava em perfumar o ar. Era o refúgio de Seu Benedito. E, ultimamente, o de muitos outros.

Ele não era um jardineiro, no sentido tradicional. Era um homem de poucas palavras, com as mãos grossas e enrugadas de quem trabalhou a vida inteira em construções, mas com uma delicadeza surpreendente ao podar uma folha seca ou transplantar um broto frágil. Seus olhos, fundos e marejados de uma melancolia antiga, pareciam carregar o peso de histórias não contadas, de dias cinzentos que o sol raramente conseguia dissipar.

As “almas perdidas”, como ele as chamava baixinho, não eram fantasmas. Eram pessoas que passavam pela vida como folhas secas ao vento: sem rumo, sem brilho, com a alma ressecada. Vinham de todas as partes. Dona Marlene, que perdeu o emprego e o marido no mesmo mês, sentada no banquinho de madeira lascada, com os olhos fixos num ponto qualquer do muro grafitado. João Pedro, o jovem que trocou os estudos pela ilusão do crime e agora vagava pelas ruas, o rosto marcado pela fome e pelo desespero, de vez em quando aceitando um copo d’água e um prato de comida que Seu Benedito generosamente oferecia. E até mesmo a jovem Clara, que sofria em silêncio a dor de um amor desfeito, as mãos trêmulas enquanto acariciava uma folha de aspargo, como se encontrasse nela um conforto fugaz.

Seu Benedito não falava muito. Às vezes, trazia um banquinho, sentava-se ao lado do visitante e trabalhava em suas plantas. O som da enxada cavando a terra, o borrifar da água, o farfalhar das folhas, tudo criava uma melodia suave e reconfortante. Em outros momentos, estendia uma mão calosa e oferecia uma florzinha miúda, de cor vibrante, que ele mesmo havia cultivado. Era um gesto simples, quase um sussurro de esperança.

Dona Marlene contou uma vez, com a voz embargada, sobre a solidão que a consumia. Seu Benedito apenas assentiu, e com uma tesoura afiada, podou um galho seco de uma samambaia, mostrando como a remoção do que não servia mais permitia que o novo crescesse com mais força. João Pedro, certa tarde, confessou o medo, o arrependimento que o corroía. Seu Benedito, sem dizer uma palavra, plantou em um pequeno vaso uma semente minúscula de hortelã, murmurando que até as menores sementes, com cuidado e tempo, podiam germinar.

Clara, uma noite, encontrou Seu Benedito sentado no escuro do jardim, apenas o luar iluminando as formas esguias das plantas. Ele estava com uma orquídea delicada nas mãos, os pétalas de um tom suave de lilás. “Às vezes”, ele disse, a voz um murmúrio rouco, “o que parece morto, só está esperando o momento certo de desabrochar. E nem todo desabrochar é barulhento. Muitos são silenciosos, quase imperceptíveis, mas não menos belos.”

As almas perdidas continuavam chegando. Algumas ficavam por pouco tempo, um alívio passageiro. Outras, tornavam-se presenças mais constantes, um eco de esperança num mundo que parecia ter esquecido de escutar. O jardim de Seu Benedito não era mágico. Era real, com suas imperfeições, seus cheiros, suas texturas. Mas ali, entre as plantas teimosas e o silêncio cúmplice, algo acontecia. Algo que resgatava, talvez não a alma inteira, mas um pedacinho dela, um broto de coragem, uma folha de resiliência.

Certo dia, a casa de Seu Benedito estava quieta. O portão, que antes se abria com a chegada de mais um aflito, permaneceu fechado. As plantas, acostumadas à sua mão cuidadosa, pareciam esperar. Dona Marlene apareceu, seguida por Clara e, mais tarde, por João Pedro, que trazia consigo um pequeno saquinho de sementes. Ninguém sabia para onde Seu Benedito tinha ido.

O cheiro de terra úmida e perfume de flores ainda pairava no ar. O jardim, porém, parecia um pouco mais selvagem, um pouco mais denso. As folhas secas, antes removidas com esmero, agora se misturavam à terra nova. E ali, no centro do pequeno quintal, onde antes havia um banquinho lascado, havia agora um pequeno canteiro de terra recém-cavada, esperando. Esperando o quê? Ninguém sabia ao certo. Mas a semente de hortelã de João Pedro, teimosa como sempre, já despontava, um pequeno sinal verde no meio do marrom.


Por: Isabela Fernandes Couto

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