O Guardião do Sótão de Vidro

O Guardião do Sótão de Vidro

O cheiro de poeira velha e mofo amigável pairava no ar do sótão, como um abraço nostálgico de tempos esquecidos. Naquele domingo abafado de outubro, o sol lançava raios dourados através das telhas de vidro envelhecidas, iluminando a dança preguiçosa de partículas suspensas. Dona Lurdes, com suas mãos nodosas enrugadas pelo tempo e pela vida, ergueu a caixa de madeira escura com um suspiro resignado. Era sempre assim, em dias que pediam um descanso do calor opressivo da tarde, que ela subia os degraus rangentes para sua pequena câmara de tesouros e assombrações.

Ali, entre móveis cobertos por lençóis brancos como fantasmas serenos, objetos que um dia foram úteis e agora apenas contavam histórias silenciosas, estava ele. Seu guardião. O armário de vidro com molduras de jacarandá, as prateleiras repletas de frascos de vidro de todas as formas e tamanhos, contendo líquidos de cores estranhas e misturas incomuns. Não eram venenos, como alguns poderiam supor. Eram… lembranças. Memórias que Dona Lurdes tentava, com um amor melancólico, preservar.

Havia o frasco com o pó dourado e cintilante que ela chamava de “Esperança de Verão”. Era o pó que ela retirava do beija-flor que morreu em seus braços, aos dez anos, um dia após o pai ter partido para nunca mais voltar. Aquele pó, ela acreditava, guardava o brilho da vida que se recusava a apagar por completo. Ao lado, um pequeno frasco com um líquido verde-musgo, a “Tristeza de Chuva”. Continha as lágrimas que ela chorou na morte da mãe, um dia chuvoso e sem fim em sua adolescência, quando o mundo parecia ter perdido todas as cores.

Cada frasco era um capítulo de sua biografia não escrita. O vermelho vibrante do “Amor do Carnaval” era a essência destilada de um beijo roubado na madrugada de quarta-feira de cinzas, um efêmero momento de paixão que a fez sentir viva como nunca antes. O azul profundo e translúcido da “Calma da Manhã” era o resultado de dias de silêncio, de observar o nascer do sol sobre a serra, de encontrar paz na rotina simples de um café coado na peneira.

Havia frascos que ela evitava abrir, cujas etiquetas estavam desbotadas e cujos conteúdos emanavam uma aura de incerteza. O mais sinistro era um pequeno recipiente escuro, quase opaco, rotulado apenas com um ponto de exclamação trêmulo. Dona Lurdes nunca soube o que havia dentro. Um dia, uma vizinha curiosa, Dona Zulmira, a mais tagarela e intrometida de todo o bairro da Vila Mariana, a viu subir para o sótão e começou a espalhar histórias sobre “ervas mágicas” e “poções perigosas”.

Dona Lurdes ria baixinho. Perigoso? Talvez. Mágico? Definitivamente. Mas não da forma que as fofocas sugeriam. A verdadeira periculosidade, ela sabia, estava na fragilidade da memória humana, na tendência de deixar as coisas boas se esvaírem como fumaça, e as ruins se enraizarem como erva daninha. Seus frascos eram sua trincheira contra o esquecimento, sua forma de dar corpo e substância aos sentimentos que, de outra forma, seriam apenas ecos distantes.

Naquela tarde, ela pegou um frasco com um líquido que parecia conter um pedaço do céu noturno, salpicado de estrelas minúsculas. Era o “Sonho Perdido de Tiago”. Tiago era seu filho. Aos sete anos, ele disse que queria ser astronauta e que construiria um foguete para visitar as estrelas. Morreu cinco anos depois, vítima de uma doença súbita e cruel. Dona Lurdes nunca conseguiu dar um nome exato à essência, mas sabia que era a soma do brilho nos olhos dele ao falar do espaço e da dor lancinante da perda que a deixou sem ar.

Ela girou o frasco na mão. Os pequenos pontos brilhantes rodopiavam, simulando galáxias distantes. Uma lágrima solitária desceu por sua bochecha e pingou no vidro, misturando-se ao conteúdo como mais uma estrela. Ela nunca contou a ninguém sobre o armário. Era um pacto silencioso entre ela e os fantasmas de sua própria existência.

De repente, um barulho na porta da rua a sobressaltou. Era sua neta, Clara, com sua energia vibrante de adolescente, chamando seu nome com impaciência. Dona Lurdes apressou-se em colocar o frasco de volta em seu lugar, o coração acelerado. Clara não sabia sobre o sótão. Para ela, eram apenas velharias acumuladas.

Ao descer, Clara trazia em suas mãos um pequeno pote de vidro. “Vó, olha o que eu achei no quintal! Um monte de formiguinhas. Achei que era engraçado. Queria guardar para mostrar para a Bia amanhã.”

Dona Lurdes olhou para o pote, para as minúsculas criaturas que se agitavam freneticamente em seu confinamento temporário. Um sorriso triste e cúmplice cruzou seus lábios. Talvez o guardião de segredos sombrios não fosse apenas ela. Talvez, de maneiras muito mais simples e orgânicas, todos nós fôssemos guardiões de nossas próprias coleções de momentos, de alegrias e de dores, esperando apenas o dia em que o sol do crepúsculo nos convidaria a abrir as janelas do tempo. E Clara, ali, com seu pote de formigas, já começava a construir o seu próprio armário de vidro do cotidiano.


Por: Elara Vance, a Arquivista do Crepúsculo

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