O Eco Silencioso da Mata
O ar denso da Mata Atlântica, impregnado do cheiro terroso da chuva que acabara de cair e da doçura pungente das flores ainda ocultas, parecia pesar sobre os ombros de Isabela. Agarrou-se mais forte ao tecido grosso da sua camisa, sentindo o suor frio a deslizar pelas suas costas. O corpo de Mateus, ex-namorado, amigo de infância, um grito vivo pela terra, jazia ali, um emaranhado de carne e concreto, tão desoladoramente fora de lugar quanto uma garrafa plástica num ninho de sabiás.
A polícia, com os seus uniformes azuis desbotados sob o sol implacável, movia-se com uma eficiência fria, cada passo uma intrusão no santuário que Mateus tanto defendera. O helicóptero das emissoras de televisão sobrevoava, um zumbido distante que diluía o silêncio resignado da mata. Isabela podia sentir os olhares curiosos, a ânsia por detalhes chocantes, a fome insaciável daquela máquina midiática que já começava a tecer a sua narrativa.
“Vingança corporativa”, sussurrou um repórter de microfone em punho, a voz tingida de um tom dramático que contrastava brutalmente com a paz imaculada que cercava o corpo. Isabela sentiu uma pontada de náusea. Claro, era a explicação mais fácil, a que gerava mais cliques, mais audiência. Mateus era um incômodo para os planos expansionistas da AgroCorp, para os desmatamentos que ele denunciava com a paixão inflamada de quem via cada árvore derrubada como uma facada no seu próprio peito.
Mas Isabela conhecia Mateus. Conhecia a teimosia dele, a forma como os seus olhos brilhavam quando falava sobre a preservação, a sua capacidade de ver beleza nas mais pequenas coisas – a delicadeza de uma samambaia, o canto de um pássaro desconhecido. Conhecia também a sua fragilidade. A sua luta, embora justa, consumia-o. As ameaças, as perseguições veladas, o isolamento crescente… tudo isso o moldava numa figura cada vez mais exposta.
Ao seu lado, o Dr. Sérgio, um biólogo de cabelos brancos e mãos enrugadas pela vida ao ar livre, observava o corpo com uma expressão sombria. Ele fora o mentor de Mateus, a figura que lhe incutira o amor pela natureza. “É um golpe duro, Isabela. Um golpe para todos nós que lutamos”, disse, a voz embargada. “Mas a mídia… eles querem um vilão claro. Uma história para vender. Nem sempre a verdade é tão simples, nem tão convenientemente empacotada.”
Nos dias que se seguiram, a história de Mateus dominou os noticiários. As manchetes gritavam “Ativista morto! Suspeita de Retaliação da AgroCorp!”. Vídeos de Mateus em protestos, com o seu rosto vibrante de indignação, eram reprisados incessantemente. A AgroCorp, com o seu departamento jurídico afiado, emitia notas de repúdio, negando qualquer envolvimento, ameaçando processar quem ousasse ligá-la à morte. A investigação policial avançava lentamente, o peso da opinião pública e da pressão corporativa pairando sobre cada passo.
Isabela, entre os abraços silenciosos de outros ativistas, a dor crua ainda pulsando, sentia-se perdida. Sabia que a verdade sobre a morte de Mateus podia ser mais complexa do que a narrativa simplista de vingança corporativa. Poderia ser um ato de desespero? Um acidente trágico exacerbado pela tensão? Ou algo ainda mais sombrio, uma trama que se escondia nas sombras, longe dos holofotes da mídia?
Uma noite, enquanto folheava o caderno de anotações de Mateus, encontrou um pequeno desenho, rabiscado com pressa: um mapa tosco de uma área isolada da mata, com um “X” marcado. Ao lado, algumas anotações ilegíveis e a frase: “Eles não sabem. A verdadeira riqueza está aqui.” A sua mente começou a correr, imaginando o que Mateus poderia ter descoberto, algo que ele temia revelar publicamente, algo que pudesse ser mais valioso do que qualquer projeto de desmatamento.
O eco do grito de Mateus pela floresta agora ressoava de forma diferente nos ouvidos de Isabela. Não era apenas um lamento pela sua vida perdida, mas um chamado, um enigma deixado para trás. A mata, silenciosa e imponente, parecia guardar mais segredos do que a mídia ousava imaginar, segredos que apenas esperavam por alguém com a coragem de desvendá-los. E Isabela, com o peso da memória e a incerteza do futuro, sentia-se cada vez mais compelida a ser essa pessoa.
Por: Catarina de Assis Mendonça

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