O Eco das Sombras

O Eco das Sombras

O cheiro de mofo e terra úmida grudava na camisa de algodão, um aroma familiar para o professor Arnaldo Ferraz. Não era a selva amazônica que ele desbravava, mas as entranhas de um antigo poço de mineração abandonado em Minas Gerais, um buraco negro na paisagem serrana, daqueles que os mais velhos contavam histórias sobre sumiços e almas penadas. Arnaldo, com seus quarenta e poucos anos, já havia se acostumado ao ceticismo dos colegas da universidade e ao olhar perplexo dos moradores de Ouro Preto quando falava de suas “pesquisas” nas profundezas. Ele procurava. Sempre procurava por algo que fugisse do óbvio, algo que o fizesse sentir o arrepio da descoberta real.

A lanterna do seu capacete projetava um feixe trêmulo sobre as paredes úmidas, onde se misturavam vestígios de ferrugem e musgo esverdeado. O som das suas próprias passadas pesadas ecoava no silêncio cavernoso, amplificando a solidão. Havia dias que passava ali, descendo por túneis estreitos e instáveis, guiado por mapas antigos e intuição.

Foi o som, no entanto, que o alertou. Um murmúrio baixo, quase imperceptível, como o sussurro do vento em uma fresta distante. Arnaldo parou, prendendo a respiração. Aquele não era o som da água gotejando ou do deslocamento de pedras. Era algo… vivo.

Seguiu a origem do som, o coração martelando contra as costelas. O túnel se alargou, dando lugar a uma caverna ampla, iluminada por um brilho fosforescente que emanava de cogumelos gigantes e de veios minerais desconhecidos incrustados nas rochas. E lá estavam eles.

Não eram monstros de contos de fadas, nem seres alados de histórias bíblicas. Eram figuras esguias, de pele pálida e translúcida, com olhos grandes e escuros que pareciam absorver a pouca luz. Moviam-se com uma agilidade silenciosa, quase líquida. Arnaldo sentiu um frio percorrer sua espinha, não de medo, mas de um espanto primordial.

Uma das figuras se aproximou. Não emitia som algum, mas Arnaldo sentiu uma comunicação direta em sua mente, uma torrente de imagens e sensações. Eram os Nômadeis da Sombra, como se apresentaram em sua consciência. Explicaram, de forma visual e sensorial, sua existência. Não se alimentavam de matéria orgânica, mas de… medo.

As imagens vieram com uma clareza avassaladora. O desespero de um minerador preso em um desmoronamento, a angústia de uma criança perdida na escuridão, a opressão de um condenado à espera da execução. Cada nuance de terror, cada grito sufocado, era um sustento para eles. E a caverna, aquele lugar abandonado e esquecido pelos vivos, era um refúgio onde os ecos dos pesadelos do mundo exterior se acumulavam.

Arnaldo tentou falar, mas as palavras pareciam inadequadas, grosseiras. Viu, então, através da mente de um deles, a sua própria imagem refletida. Um homem com a testa franzida, o olhar intenso, o corpo tenso. E percebeu que também ele emanava um tipo de… energia. A energia da busca incansável, da frustração contínua, do receio de nunca encontrar. O medo da insignificância.

Um dilema o assaltou. Ele, um estudioso da vida, da ciência, do raciocínio lógico, estava diante de algo que desafiava tudo. Seriam eles uma manifestação do inconsciente coletivo? Uma evolução bizarra da vida? Ou apenas uma miragem, uma alucinação induzida pela privação sensorial e pela exaustão?

Um dos Nômadeis projetou uma imagem mais clara: uma criança, dormindo tranquilamente. O sono pacífico, sem a sombra de um pesadelo. O Nômade “explicou” que eles não causavam os medos, apenas os absorviam, como fungos que decompõem a matéria morta. E que, por vezes, a sua presença podia até mesmo dissipar a intensidade de um pesadelo, deixando para trás apenas o alívio da ausência.

Arnaldo sentiu um nó na garganta. Eram parasitas? Ou algo mais complexo? Ele pensou nos pesadelos que ele mesmo tinha, nas sombras que o perseguiam em noites de insônia. Pensou nas pessoas que conhecia, nas suas angústias silenciosas.

A luz fosforescente da caverna começou a diminuir, como se a sua presença estivesse drenando a energia do local. Os Nômadeis pareciam recuar, voltando para as profundezas. Arnaldo sabia que não tinha muito tempo.

Ao se virar para sair, um dos Nômadeis parou. Projetou em sua mente uma única imagem: um medalhão de prata, com um símbolo abstrato gravado. A imagem era acompanhada por uma sensação de… gratidão.

Arnaldo saiu da mina sob o sol forte de Minas, a poeira ainda grudada em sua pele. A experiência pesava sobre ele, mais do que as rochas que carrega em sua mochila. O medalhão não estava em seu bolso, mas a imagem estava gravada em sua mente.

Ele voltou para a cidade, para sua casa modesta, para sua vida de estudos. Mas algo havia mudado. Os pesadelos, antes eventos isolados, agora pareciam ter um significado diferente. E quando ele fechava os olhos, às vezes, sentia um eco tênue, um sussurro familiar, vindo das profundezas da terra. E se perguntava: para onde iam os nossos medos quando desapareciam? E se existissem outros ecos, outros abismos, aguardando o próximo explorador, o próximo devorador de sombras?


Por: Ricardo Soares Guedes

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