O Eco da Ala Leste

O Eco da Ala Leste

A Escola Municipal Professora Irene Guimarães, no bairro Vila Esperança, nunca foi particularmente famosa. Sua fama, se é que se pode chamar assim, residia em algo mais etéreo, um sussurro guardado nos corredores largos e descascados da ala leste, onde o sol parecia ter mais dificuldade em penetrar, mesmo nos dias mais claros. A lenda era sobre um garoto, Miguel, que morrera ali anos atrás. Não em um acidente de carro, nem em uma briga. A história, contada em sussurros pelos alunos mais velhos para os novatos assustados, dizia que ele se acidentou no próprio prédio, um tropeço infeliz nas escadas em espiral que levavam ao ginásio, a queda sendo fatal. E, diziam, seu choro ainda ecoava nos intervalos, um lamento baixo e persistente que se misturava ao burburinho infantil.

Lara, 14 anos, olhos escuros e expressivos, com um lado da cabeça raspado onde uma mecha loira se destacava, era cética. Não por bravura, mas por uma necessidade quase fisiológica de desmistificar o mundo. Aos olhos dela, os medos dos outros eram apenas ruídos a serem ignorados. Mas o choro de Miguel, ah, esse ela ouviu. Aconteceu numa tarde cinzenta de agosto, durante a aula de reforço de matemática. A professora, Dona Eunice, com sua paciência infinita e voz que lembrava um mar revolto, explicava frações pela décima vez. Lara estava distraída, olhando para a poeira dançando nos feixes de luz que entravam pelas janelas altas. Foi quando um som a tirou de seu devaneio. Um som baixo, abafado, quase como o choro de um bebê encolhido em um canto.

Ela levantou a cabeça, o coração disparado. Os colegas ao redor, imersos em seus cadernos, pareciam não ouvir nada. Dona Eunice continuava a rabiscar fórmulas no quadro. O som persistia, vindo da direção da ala leste. Era um choro de tristeza profunda, sem raiva, sem desespero. Apenas uma dor pura e inalterável. Lara sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Não era o medo que a dominava, mas uma curiosidade incômoda, um impulso de ir até lá e entender.

Nos dias que se seguiram, Lara começou a prestar mais atenção. Ela esperava os intervalos, não para jogar bola com os amigos, mas para vagar pela ala leste. O cheiro de mofo misturado ao desinfetante barato, o ranger das portas antigas, o eco dos passos nos pisos gastos. Ela sentava-se nos degraus da escada em espiral, agora interditada com uma fita amarela, e esperava. Às vezes, escutava. Uma nota longa e melancólica, um soluço que parecia emergir das próprias paredes. Outras vezes, o silêncio era completo, exceto pelo zumbido da vida escolar lá fora.

Ela tentou conversar com os outros. Kai, seu melhor amigo, com seus óculos de armação grossa e paixão por games, apenas revirou os olhos. “Lara, para com isso. É só o vento, ou algum cano velho.” Mas Lara sabia que não era. Havia uma cadência, uma intencionalidade no som. Ela buscou informações. Perguntou à bibliotecária, Dona Odete, uma senhora de óculos sempre apertados no nariz e um sorriso discreto. Dona Odete contou-lhe sobre Miguel. Um garoto tímido, dedicado aos estudos, que gostava de desenhar. Tinha uma irmã mais nova que ele adorava. Um dia, ele simplesmente não voltou para casa. O acidente na escada foi o que disseram para encobrir algo mais, talvez. Ninguém sabia ao certo. A mãe dele, Dona Clara, ainda morava no bairro, um fantasma de sua antiga vitalidade, que raramente era vista.

Um dia, Lara teve uma ideia. Ela passou horas na biblioteca, vasculhando arquivos antigos do jornal local, procurando menções a Miguel. Nada. Mas ela encontrou um pequeno obituário sobre o acidente de um estudante. O nome não era Miguel. Era outro. Um garoto chamado João. A data coincidia. Uma inquietação crescente a tomou. E Miguel? Se o acidente nas escadas não foi com ele, o que aconteceu? E por que o choro parecia tão genuíno, tão triste?

Numa tarde de terça-feira, enquanto o crepúsculo pintava o céu de tons alaranjados e roxos, Lara voltou à ala leste. O choro estava lá, mais audível do que nunca. Ela seguiu o som, que a levou a uma sala de artes abandonada, ao final de um corredor escuro. A porta estava entreaberta. Dentro, o cheiro de tinta seca e poeira era forte. Havia cavaletes empoeirados, telas em branco e um pequeno banquinho de madeira no canto. O choro parecia vir dali. Lara hesitou, mas a necessidade de saber a impeliu para dentro. Ela se aproximou do banquinho. Não havia nada. Apenas poeira e o silêncio repentino do choro. Ela sentiu uma presença, uma tristeza pairando no ar, densa e palpável.

Então, ela viu. No chão, escondido debaixo do banquinho, havia um pequeno caderno, com a capa gasta e um desenho de um sol sorridente rabiscado na frente. Ela o pegou. As páginas estavam cheias de desenhos infantis e frases curtas. Eram desenhos de um menino e sua irmã, brincando no parque, na praia. E havia palavras. “Eu te amo, Ana.” “Sinto sua falta.” “Por favor, não chore.” A última página continha um único desenho: um menino com olhos tristes olhando para cima, para uma estrela distante. E um nome, escrito em letras desajeitadas: Miguel.

Lara fechou o caderno, sentindo o peso do mundo cair sobre seus ombros. O choro não era de medo, não era de dor física. Era o choro de uma saudade eterna, de um amor inalcançável. Ela não tinha certeza do que tinha acontecido com Miguel, mas sabia que sua dor, sua saudade, ainda estava ali. E talvez, apenas talvez, ele não estivesse sozinho. Talvez o choro fosse um chamado, um eco de um coração partido, buscando um ouvido que pudesse escutar além do barulho do mundo. A ala leste, agora, para Lara, não era mais um lugar de lendas assustadoras. Era um santuário silencioso de uma dor que se recusava a ser esquecida. E no silêncio que se seguiu, um novo som começou a se formar nos ouvidos atentos de Lara: o som de uma escuta mais profunda, de uma empatia que nascia no eco de um choro antigo.


Por: Ricardo Soares Guedes

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