O colecionador de sorrisos.

O colecionador de sorrisos.

**O Colecionador de Sorrisos: A Arte de Capturar a Alegria em Tempos Sombrios**

As paredes do pequeno apartamento no centro de São Paulo não exibem quadros caros ou obras de arte abstratas. Em vez disso, a vida pulsa em centenas de fotografias, cada uma delas um convite para reviver um instante de pura felicidade. Ali, pendurado em porta-retratos simples, colados diretamente na parede ou em álbuns desbotados, está o legado de João Carlos, um homem discreto de 68 anos que se autodenomina, com um brilho nos olhos cansados, “o colecionador de sorrisos”.

João Carlos não coleciona objetos. Coleciona momentos. E não quaisquer momentos, mas aqueles em que um sorriso genuíno irrompe, dissipando a rotina, a tristeza ou a preocupação. Ele o faz com uma câmera antiga, uma Pentax que herdou do pai, um ex-fotógrafo amador. A máquina, com seu cheiro característico de couro e metal, parece ter vida própria em suas mãos enrugadas.

“Cada sorriso é uma pequena vitória”, explica João Carlos, a voz rouca, mas firme. Sentado em sua poltrona surrada, ele aponta para uma foto de uma menina de uns sete anos, com os dentes faltando e um sorriso que ocupa o rosto inteiro. “Essa foi tirada no parque, há uns cinco anos. Ela tinha acabado de ganhar um algodão doce e o mundo parecia dela. Sabe, aqueles momentos que a gente esquece que existem?”

Sua jornada como colecionador começou há mais de trinta anos, em um período de grande instabilidade econômica e social no Brasil. “As pessoas pareciam mais cabisbaixas, mais preocupadas. Eu sentia uma necessidade, sabe? De registrar que, apesar de tudo, a alegria ainda brotava. Era um ato de resistência, talvez.”

O colecionador não cobra nada por suas fotos. Ele anda pelas ruas, frequentando feiras livres, praças públicas, eventos culturais gratuitos. Observa, espera pacientemente o instante mágico. Uma mãe rindo do filho travesso, um idoso compartilhando uma piada com um amigo, um casal de namorados trocando olhares cúmplices. O clique da câmera, quase inaudível, captura a efemeridade da felicidade.

Dona Maria, 55 anos, vendedora de pastéis em uma feira da Mooca, guarda com carinho uma foto que João Carlos tirou dela. “Estava um dia horrível, chuvoso, pouco movimento. Eu estava desanimada. De repente, apareceu o Seu João Carlos, com aquela câmera antiga. Ele me viu rindo de uma história que uma cliente contou e… click! Quando ele me deu a foto depois, com aquele sorriso tão meu, parecia que o dia tinha clareado.”

Mas nem sempre é fácil. João Carlos já enfrentou olhares desconfiados, pessoas que o acham estranho, ou pior, que se sentem invadidas. “Eu explico, tento ser gentil. A maioria entende. Outros não. Mas o importante é que a foto está lá. Um registro. Uma lembrança de que a vida pode ser boa.”

A coleção é um mosaico da vida brasileira, uma galeria de rostos anônimos que encontraram um instante de luz. Há o padeiro que gargalha de uma brincadeira, a jovem que celebra a aprovação em um exame, o senhor que se diverte com o cachorro. Cada imagem é uma narrativa silenciosa, um testemunho da resiliência humana.

Em um país marcado por desigualdades sociais gritantes, pela violência que assombra as cidades e pela incerteza política, os sorrisos de João Carlos se tornam um bálsamo. Ele não busca fama, nem dinheiro. Busca apenas documentar a beleza efêmera que insiste em florescer nos lugares mais inesperados.

No dia em que o visitei, ele me mostrou uma foto recente: um garoto de rua, com as roupas rasgadas, dividindo um pedaço de pão com um cachorro vira-lata. O sorriso do menino, apesar da dureza da imagem, era radiante, puro.

“É para isso que eu vivo”, disse João Carlos, com um suspiro leve. “Para colecionar esses momentos. Para que, um dia, alguém olhe para isso e se lembre que, mesmo nas piores tempestades, há sempre um raio de sol.”

Ele acredita que sua coleção é mais do que fotos. É um legado de esperança, um convite para que cada um de nós busque e celebre os próprios momentos de alegria, por menores que pareçam.

Mas o que acontece com essa coleção inestimável quando o colecionador de sorrisos um dia não puder mais clicar? E para onde vão todos esses sorrisos capturados, se não houver quem os guarde?


Por: Silas Thorne, o Cronista do Insólito

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