O Aço Frio da Lembrança
O cheiro de café fresco e pão de queijo, um rito matinal imutável na casa de Dona Irene, foi o primeiro a flagrar a anomalia. Não era o aroma familiar, doce e reconfortante. Havia nele uma nota metálica, fugaz, quase um arrepio na garganta. Helena, ainda sonolenta no sofá da sala, esticou o braço para pegar o celular e, no lugar onde antes repousava o controle remoto da TV, encontrou algo que não deveria estar ali.
Era uma velha bússola. Não uma dessas modernas, de plástico e precisão digital. Essa era de latão, o metal escurecido pelo tempo e pelo uso, com um visor de vidro riscado, onde os números e as letras de “N”, “S”, “L”, “O” pareciam gravados com a força de quem acreditava em direções. O ponteiro, um fino estilete de aço azulado, balançava levemente, como se tentasse encontrar seu norte em meio à quietude da sala.
Helena piscou. A bússola pertencia ao avô dela, Seu Afonso. Um homem que, diziam, carregava mais histórias no olhar do que estrelas no céu noturno de sua juventude no interior. Ele a perdera anos atrás, durante uma das suas raras viagens à cidade grande, um evento que sempre parecia deixar um rastro de melancolia e um certo receio em Seu Afonso. Ele nunca mencionou a bússola depois, mas Helena se lembrava de vê-la, pendurada em seu pescoço, um amuleto em suas mãos calejadas.
Onde ela poderia ter ido parar? Helena revirou a memória. A última vez que viu a bússola foi na pequena caixa de madeira que guardava as poucas joias da avó e alguns objetos que Seu Afonso considerava tesouros. A caixa ficava no alto do guarda-roupa de mogno do quarto dos pais dela, um lugar que só era alcançado em limpezas profundas ou em momentos de necessidade. E a bússola definitivamente não estava lá.
A cena se repetia em sua mente: a poeira fina que subia com o movimento, o brilho opaco do metal revelado. Nada. A bússola não pertencia àquele guarda-roupa.
Dona Irene entrou na sala, o avental ainda impregnado do aroma do café. “O que é isso, filha?”, perguntou, os olhos arregalados ao ver o objeto nas mãos de Helena.
“É a bússola do vovô, mãe. A que ele perdeu.” A voz de Helena saiu mais baixa do que o pretendido, tingida de incredulidade.
Dona Irene pegou a bússola, o toque suave do seu dedo percorrendo o metal frio. Um suspiro escapou dos seus lábios. “Como isso veio parar aqui? Essa bússola…”, ela hesitou, um véu de saudade cobrindo seus olhos. “Seu Afonso sentia muita falta dela. Diziam que ela o guiava não só pelos caminhos da terra, mas pelos da vida.”
O dilema pairava no ar, denso como o vapor do café. Helena tentou, com a lógica implacável da idade adulta, encontrar uma explicação. Uma falha de memória dela ou da mãe? Um objeto escondido e esquecido por anos que, por um acaso cósmico, reaparecia? Um ladrão que a descartou? Mas por que ali? Na mesa de centro, como uma oferenda.
O dia seguiu em um ritmo estranho. O trabalho a chamava, as contas precisavam ser pagas, a rotina insistia em se reafirmar. Mas a bússola, agora repousando sobre a cômoda ao lado da fotografia sorridente de Seu Afonso, parecia ter um campo magnético próprio, atraindo olhares, pensamentos. Helena a pegava de vez em quando, sentindo o peso familiar em suas mãos. O aço frio, antes um elemento estranho, tornava-se um ponto de interrogação palpável.
Naquela noite, o sono demorou a chegar. As ruas de São Paulo, lá fora, rugiam com o trânsito noturno, um mar de luzes e sons que pareciam distantes. Helena olhava para o teto, pensando em seu avô. Pensando em como ele, com sua sabedoria ancestral, sempre parecia saber o caminho, mesmo em meio à confusão do mundo. A bússola, o objeto que parecia não ter lugar em sua vida moderna, agora era um convite silencioso.
Ela fechou os olhos, e por um instante, sentiu a brisa suave do campo, o cheiro da terra molhada, a voz calma de Seu Afonso contando histórias sob a luz de um lampião. Um caminho. Um norte. Algo que a bússola parecia sussurrar, sem dizer palavra alguma.
E ali, no silêncio do seu quarto, Helena se perguntou para onde, de fato, a bússola a guiaria. E se ela seria corajosa o suficiente para seguir.
Por: Ricardo Soares Guedes

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