Ecos de Pedra e Poesia
O ar no porão da casa de Dona Eugênia, um casarão colonial que respirava história em cada fresta, era espesso e carregado. Poeira, cheiro de mofo e a umidade de décadas acumuladas criavam uma atmosfera quase palpável. Foi lá que nós, um grupo insseparável de amigos unidos pela paixão pela arquitetura e pelas histórias esquecidas de Ouro Preto, nos aventuramos. Lucas, o historiador do grupo; Clara, a fotógrafa com um olhar sensível para detalhes; André, o pragmático sempre em busca de explicações lógicas; e eu, Catarina de Assis Mendonça, a escritora que buscava inspiração em cada pedra a se esfarelar.
O objetivo era catalogar alguns objetos de valor histórico antes que o tempo os consumisse por completo. Foi Clara, com sua lanterna de feixe penetrante, que tropeçou em um baú de madeira escura, encoberto por uma lona empoeirada. Dentro, repousava um álbum de fotografias, pesado, com a capa de couro desbotada e um fecho de latão oxidado.
A excitação tomou conta de nós. Abrimos o álbum com um cuidado reverente. As fotografias, em preto e branco e sépia, revelavam rostos sérios, vestidos de época, em cenários que reconhecíamos como a Ouro Preto de outrora. Eram retratos de famílias, de figuras notáveis, talvez de pessoas que um dia habitaram aquelas mesmas ruas que agora percorríamos. Havia uma mulher com um olhar penetrante e altivo, um homem com um bigode impecável e um sorriso enigmático, e um grupo de crianças com olhares assustados e curiosos. As legendas, escritas à mão com uma caligrafia elegante, estavam desbotadas e ilegíveis na maioria.
Aquela noite, reunidos na varanda da casa, enquanto a brisa fresca da montanha acariciava nossos rostos, cada um de nós levava consigo a imagem de uma ou mais figuras do álbum. Eu, particularmente, fiquei obcecada pelo retrato da mulher, com seus olhos escuros que pareciam carregar um segredo ancestral.
Os pesadelos começaram na noite seguinte. Eram estranhos e vívidos. Lucas sonhou com um homem com um chapéu de abas largas, sussurrando em latim ininteligível. Clara viu a mulher de olhos penetrantes em um quarto escuro, iluminado apenas pela luz trêmula de uma vela, gesticulando em silêncio. André, que sempre desdenhou de superstições, viu um grupo de crianças correndo por corredores escuros, com os rostos contorcidos em medo. Eu, claro, sonhei com a mulher do retrato. Ela aparecia em meu quarto, suas feições gravadas na escuridão, e seus olhos pareciam me fitar com uma intensidade perturbadora.
Nas semanas seguintes, a linha entre o real e o onírico começou a se borrar. A cada passo por Ouro Preto, sentíamos a presença sutil, quase imperceptível, daqueles rostos. Uma sombra fugaz no canto do olho, um sussurro levado pelo vento que lembrava uma voz do pesadelo, a sensação de estarmos sendo observados.
Clara, em suas incursões fotográficas, jurava ter visto a mulher do retrato em uma janela de uma casa abandonada no Morro da Forca. André, enquanto caminhava pela Rua Direita, viu um homem com um bigode idêntico ao de uma das fotos, que o encarou com um brilho estranho nos olhos antes de desaparecer em meio à multidão. Lucas, ao visitar o Museu da Inconfidência, sentiu uma mão fria tocar seu ombro, e ao se virar, não viu ninguém, mas o cheiro de cera de vela pairou no ar.
Eu, por minha vez, comecei a encontrar objetos que pareciam pertencer àquelas figuras. Um broche antigo com um desenho incomum que vi em um dos retratos apareceu sobre a minha escrivaninha. Uma velha echarpe de seda, com um padrão que eu sentia ter visto em um dos vestidos, surgiu misteriosamente em meu guarda-roupa.
O pânico começou a se instalar. Nossos sonhos se tornaram mais frequentes, mais intensos. As figuras do álbum não eram mais meras imagens em papel desbotado, mas presenças reais, habitando nossos pensamentos e nosso ambiente. A Ouro Preto que amávamos, com sua beleza barroca e sua aura mística, agora parecia nos aprisionar em uma teia de mistérios esquecidos.
Decidimos revisitar o porão. A atmosfera parecia ainda mais pesada. Abrimos o baú novamente, e desta vez, um pergaminho fino, enrolado e selado com cera vermelha, chamou nossa atenção. Com mãos trêmulas, o desenrolamos. Eram palavras escritas em português arcaico, uma espécie de confissão, de um pedido de socorro. Falava de uma promessa quebrada, de almas presas, de um ritual inacabado que ligava os vivos aos mortos através de suas representações.
As figuras nas fotos, percebemos com um arrepio que gelou a espinha, eram os guardiões de um segredo, e de alguma forma, ao abrirmos o álbum, havíamos despertado algo antigo e inquieto. A mulher de olhar penetrante era a matriarca de uma família que guardava a chave de um tesouro, ou de um conhecimento, que fora roubado. O homem enigmático, o conselheiro que sabia demais. As crianças, as vítimas inocentes da ganância.
A nossa busca por histórias em Ouro Preto havia se transformado em uma investigação perigosa. Precisávamos desvendar o mistério por trás das fotografias e do pergaminho antes que as figuras saíssem completamente de seus limites oníricos e de sua influência sutil, tornando-se presenças indeléveis e, talvez, perigosas em nossas vidas. A pedra e a poesia de Ouro Preto, que tanto admirávamos, agora ecoavam com os sussurros de almas esquecidas, e nós éramos os ouvintes relutantes e, agora, os protagonistas de um conto que escrevíamos sem querer, com medo e fascinação, sob o olhar atento de rostos que emergiam de um velho álbum de fotografias.
Por: Catarina de Assis Mendonça

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