A polícia descarta o corpo encontrado como suicídio, mas um detalhe peculiar sugere o contrário.
A Vendedora de Sonhos
A luz do sol de meados de novembro entrava torta pelas janelas empoeiradas da casa de Dona Elza, mas não era o calor que incomodava Laura naquela manhã. Era o silêncio. Um silêncio pesado, denso, que contrastava com o burburinho habitual das manhãs de bairro. As crianças brincando na rua, o cheiro de café passado, o apito do vendedor de pão. Nada. Apenas o lamento baixo de uma mãe que tentava aceitar o inaceitável.
O corpo de Rafael, seu único filho, fora encontrado na noite anterior. Pendurado no lustre da sala, um nó bem dado, um ar de resignação nos traços que Laura já não conseguia mais discernir. A polícia, apressada como sempre, já havia feito seu papel: um laudo preliminar, um sussurro de “comum” e a recomendação de que a família se apressasse com os trâmites. Suicídio. A palavra soava oca, cruel.
Laura, porém, era uma mulher de detalhes. Vendedora de lingerie em domicílio, ela aprendera a ler as entrelinhas dos corpos, as pequenas tensões que denunciavam inseguranças, as microexpressões que revelavam desejos ocultos. E o corpo de Rafael, por mais que a polícia quisesse acelerar o encerramento, sussurrava uma história diferente.
O nó. Um nó de marinheiro, aprendera ela em um livro antigo que o pai, pescador de alma, lhe dera. Um nó que exigia prática, firmeza, conhecimento. Rafael era um bom rapaz, trabalhador, um pouco retraído, mas jamais desajeitado a ponto de se enforcar com tanta perícia. Além disso, a corda, um sisal grosso e áspero, não era algo que Laura jamais tivesse visto em casa. As cordas de Rafael eram finas, coloridas, usadas para amarrar cadernos ou pendurar desenhos infantis.
E o último detalhe, o que roía a alma de Laura como um cupim insistente: o punho. No pulso direito de Rafael, um leve avermelhamento, quase imperceptível sob a pele pálida, um contorno suave de algo que parecia ter sido pressionado com firmeza. Como uma pulseira. Uma pulseira que não estava ali.
Ela olhou para o cômodo, as paredes beges que Rafael um dia pintara de azul, o sofá surrado onde passavam horas assistindo a filmes. Uma vida inteira se resumia agora a um laudo. Mas Laura sabia, com a certeza fria que o luto trazia, que aquele laudo estava incompleto. Havia algo mais. Uma sombra pairando sobre a resignação forçada, um grito mudo sufocado no silêncio da sala. Ela se levantou, sentindo a força bruta da maternidade ressurgindo das cinzas. O destino de Rafael não seria decidido por um protocolo apressado. Ela iria desvendar o que a polícia, em sua pressa, havia deixado passar. E o que quer que fosse, ela o enfrentaria. Porque o amor de uma mãe, afinal, era um nó ainda mais difícil de desatar.
Por: Beatriz Almeida Vianna

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