A Fresta Inesperada

A Fresta Inesperada

O cheiro de café requentado e a poeira fina que dançava nos raios de sol atravessando a veneziana eram os únicos acordes do amanhecer na casa de Dona Lourdes. Aos setenta e dois anos, a rotina era um cobertor de retalhos costurado com o som do ventilador de teto, o ranger da cadeira de balanço e as novelas da tarde. Vivia em Bangu, numa casa herança de pais, com um quintal onde os pés de jabuticaba e manga pareciam tão velhos quanto ela, mas ainda generosos em frutos.

A porta surgiu numa terça-feira. Era um dia de céu azul sem fim, desses que prometem calor e preguiça. Dona Lourdes, como de costume, ia recolher o jornal na calçada quando parou. Ali, na parede lateral da sua casa, aquela que dava para o terreno baldio e malcheiroso do vizinho falecido, onde antes só havia tijolo aparente e um borrão de musgo, agora havia uma porta.

Não era uma porta qualquer. Era de madeira escura, um tom que lembrava mogno antigo, com uma maçaneta de latão polido que reluzia como ouro velho. Não tinha batente aparente, parecia fundida à parede, como se sempre estivesse ali e ela, em sua longa existência naquele lugar, nunca a tivesse notado. Era uma porta alta, esguia, com um detalhe sutil de relevo na superfície, que evocava folhas estilizadas.

O coração de Dona Lourdes deu um solavanco. Não de medo, mas de um estranhamento profundo, como quem vê uma constelação mudar de lugar. Andou devagar, a mão estendida, a pele enrugada roçando a madeira fria e lisa. Passou os dedos pela maçaneta; estava gelada, apesar do sol forte. Tentou girá-la. Resistiu. Pressionou com mais força. Nada.

Naquele dia, a rotina se desfez. O jornal ficou esquecido na mesa da cozinha. O café esfriou na xícara. Dona Lourdes passou a manhã em frente àquela porta, os olhos fixos, a mente girando como um pião desgovernado. Lembrou-se de todos os pedreiros que já tinham passado por ali, dos reparos, das reformas. Ninguém nunca mencionou uma porta. Ninguém nunca viu.

Seus filhos, Ricardo e Mariana, moravam longe. Ele em São Paulo, ela no Rio de Janeiro, mas em outro bairro. As visitas eram esporádicas, mas as chamadas, frequentes. Na primeira ligação, Dona Lourdes hesitou. Como contar? Seria loucura. Ela mesma duvidava.

“Mãe, tudo bem? Tá animada hoje?”, a voz de Mariana soou melosa do outro lado da linha.

“Ah, filha… tudo… mais ou menos.”

“O que houve? Tá sentindo alguma coisa? Dor no joelho?”

“Não, não é nada disso. É… é uma coisa estranha.” E então, com a voz embargada por uma emoção que ela não sabia nomear, Dona Lourdes descreveu a porta.

Mariana riu. “Mãe, que brincadeira é essa? Deve ter batido a cabeça. Ou é a novela te deixando agitada.”

“Não, Mari. Eu estou vendo. Está ali. Bem onde não tinha nada.”

Ricardo, na ligação seguinte, foi mais cético. “Porta, mãe? Onde? Na parede? Tem certeza que não é uma sombra, um truque de luz?”

Dona Lourdes sentiu um nó na garganta. Ver o ceticismo nos olhos (ou melhor, na voz) dos filhos era pior do que a própria estranheza do fenômeno. Eles a viam envelhecer, e com o envelhecimento, vinha a fragilidade, a possibilidade da confusão.

Os dias passaram. A porta permaneceu. Dona Lourdes começou a levar um banquinho para sentar-se em frente a ela. Observava-a. Às vezes, parecia que as folhas entalhadas no relevo se moviam suavemente, como se respirassem. O cheiro da madeira, agora, parecia trazer um perfume sutil, adocicado, que lembrava flores de alguma terra distante.

Ela começou a conversar com a porta. Contava sobre sua infância, sobre o primeiro amor que se mudou para o Nordeste, sobre a morte do marido, seu Antônio, que deixara um vazio tão grande quanto a porta parecia preencher. Contava sobre as alegrias pequenas: o neto que a chamava de “Vó Fofoca”, o bolo de cenoura que sempre saía perfeito, o pôr do sol visto da varanda.

Uma tarde, enquanto falava sobre o desejo de ver o mar novamente, de sentir a brisa salgada no rosto, algo aconteceu. Um estalo suave, quase inaudível, partiu do interior da porta. A maçaneta de latão, antes fria, agora emanava um calor tênue.

Dona Lourdes prendeu a respiração. Seus olhos se arregalaram. O que havia ali dentro? Um refúgio? Uma memória esquecida? Uma nova oportunidade? Ou apenas a solidão se manifestando de forma mais concreta?

Levantou-se do banquinho, as pernas um pouco trêmulas. Estendeu a mão, os dedos roçando a superfície da madeira. O cheiro adocicado se intensificou, misturado a um aroma de maresia e algo mais, algo fresco, vibrante, de terra molhada. A maçaneta, agora, parecia convidá-la.

Uma dúvida cruel a paralisou. E se fosse um portal para o esquecimento? Para o fim? E se, ao abri-la, ela deixasse para trás tudo que ainda a prendia à vida, mesmo que fosse apenas a rotina silenciosa e os pés de jabuticaba? E se a porta fosse apenas um convite à ilusão, e o que estivesse do outro lado fosse o vazio?

Ela olhou para trás, para a casa familiar, para as paredes que guardavam sua história, para as lembranças impregnadas em cada móvel. A luz do sol, agora alaranjada, pintava o quarto com tons de melancolia e esperança.

A maçaneta girou levemente sob sua mão. A porta, lentamente, começou a ceder, abrindo uma fresta que revelava não escuridão, mas uma luz suave e convidativa. O aroma que emanava era agora avassalador, cheio de promessas e mistérios. Dona Lourdes respirou fundo, o coração batendo descompassado contra as costelas. Ali estava a escolha. Abri-la completamente e dar um passo, ou recuar, e deixá-la fechada para sempre, um enigma sem resposta no muro de sua casa. Seus dedos ainda estavam na maçaneta. A porta continuava a se abrir.


Por: Marina Rocha Antunes

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