Um grupo de adolescentes em um parque de diversões abandonado onde as atrações ganham vida.

Um grupo de adolescentes em um parque de diversões abandonado onde as atrações ganham vida.

O Sol da Tarde em Pedaços

O cheiro adocicado e enferrujado pairava no ar, uma mistura peculiar de algodão doce mofado e metal que se decompõe sob o sol impiedoso. Era o perfume do Parque Allegro, que há cinco anos se transformara em um esqueleto de alegria desativada, um monumento esquecido nas margens de uma cidade que seguia em frente. Mas para Léo, Bia, Rafa e Sofia, era o seu reino secreto.

Léo, com seus cabelos cor de ébano rebeldes e um riso que parecia querer despencar do peito, era o líder de fato, impulsionado por uma coragem que beirava a imprudência. Bia, a mais velha e a mais cautelosa, carregava o peso da responsabilidade nos ombros magros, sempre tentando por um freio nas investidas de Léo. Rafa, silencioso e observador, com olhos que pareciam absorver cada detalhe do abandono, preferia os cantos sombrios, com seu caderno de desenhos sempre à mão. E Sofia, a caçula, com seus olhos de jabuticaba e uma imaginação que transbordava, via magia onde os outros viam decadência.

Naquele sábado, o plano era ousado: explorar a Roda Gigante, a majestosa carcaça de ferro que dominava o horizonte do parque. Os vagões enferrujados pendiam como frutos maduros em galhos secos.

“Dizem que a última vez que ela girou, alguém se jogou lá de cima”, sussurrou Bia, a voz embargada pela sugestão.

“Bobagem”, retrucou Léo, já escalando a grade de segurança parcialmente desfeita. “Era só um boato para assustar criança.”

A subida foi um desafio de nervos e músculos. O metal rangia sob o peso deles, cada passo ecoando na vastidão silenciosa. Rafa, com sua agilidade discreta, já estava no topo, observando a paisagem urbana que se estendia sob eles, um mar de telhados e antenas. Sofia, com os olhos arregalados de expectativa, agarrava a mão de Bia, um misto de medo e êxtase dançando em seu rosto.

Quando finalmente alcançaram a plataforma, o silêncio pareceu se intensificar. A brisa que soprava parecia sussurrar histórias de risadas e gritos de emoção. Foi então que aconteceu.

O vagão mais próximo a eles, que estava imóvel há anos, soltou um gemido metálico. Um movimento sutil, quase imperceptível, mas definitivo. Sofia soltou um gritinho abafado.

“Vocês viram isso?”, a voz de Bia falhou.

Léo, com o coração disparado, negou com a cabeça. “Deve ter sido o vento. Ou um rato.”

Mas o vagão voltou a ranger, desta vez com mais força. Uma luz fraca, um brilho alaranjado e intermitente, começou a piscar em seu interior. O som de uma música antiga, distorcida e fantasmagórica, começou a se infiltrar no ar, vindo de algum lugar dentro da roda.

“Não é o vento”, disse Rafa, a voz calma, mas com uma nota de assombro. Ele apontava para o carrossel, cujos cavalos de madeira, antes imóveis e descascados, agora balançavam levemente, como se estivessem prestes a disparar. As luzes coloridas, que deveriam estar quebradas, piscavam em um ritmo errático.

O pânico começou a se instalar. O pavor genuíno de ver o que era inanimado ganhar vida, de ver o passado se agitar. Os murmúrios de Sofia se tornaram soluços. Bia, paralisada, observava o carrossel com um olhar fixo de horror.

Léo, porém, sentiu uma outra emoção aflorar. Uma onda de adrenalina misturada a uma curiosidade insaciável. Ele se aproximou da borda do vagão, ignorando os gritos de Bia.

“Vamos lá, quem vai ser o primeiro a ir?”, ele perguntou, um sorriso irresponsável brincando em seus lábios. Mas sua voz, apesar de tudo, carregava um traço de dúvida. Ele olhava para os vagões que agora giravam lentamente, em sincronia com a música sinistra, e para os cavalos do carrossel que pareciam convidá-los para um passeio eterno.

Rafa, com o caderno de desenhos esquecido nas mãos, olhou para a cidade que se estendia ao longe, para as vidas normais que continuavam lá, alheias à melancolia sobrenatural que os envolvia. Ele sabia que tinham que sair dali, que aquele não era um lugar para se brincar. Mas uma parte dele, a parte que amava o estranho e o inexplicável, sentia uma atração irresistível.

Sofia, entre o medo e a fascinação, observava um dos cavalos do carrossel, um corcel negro com olhos de vidro que pareciam brilhar com uma inteligência antiga. Ela se perguntou se ele lembrava de algum sorriso, de alguma criança alegre.

A música aumentou, um convite irrefreável. A roda gigante continuava seu giro lento e majestoso. As luzes do carrossel piscavam mais intensamente, pintando sombras dançantes no chão gramado e coberto de folhas secas. O parque, que antes era um túmulo de memórias, agora parecia despertar para um novo tipo de existência, uma existência que exigia participação.

Eles estavam lá, quatro jovens à beira do impossível, com a escolha em suas mãos: fugir do que não compreendiam ou abraçar o mistério que os chamava, mesmo que isso significasse se perder em um turbilhão de nostalgia e perigo. A noite estava apenas começando a cair.


Por: Catarina de Assis Mendonça

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