O arquiteto do terror.
O Arquiteto do Terror
O cheiro acre de concreto úmido pairava no ar, misturado ao pó fino que se agarrava aos meus pulmões. A tarde em São Paulo já denunciava seu cansaço, as cores desbotadas pelos prédios cinzentos e pelo asfalto que refletia um sol sem força. Eu, Elias, estava ali, no canteiro de obras do Edifício Vereda, sentindo o peso do dia em cada músculo. Tinha passado horas desenhando plantas, calculando cargas, imaginando espaços que deveriam inspirar tranquilidade e segurança. Mas, ultimamente, meus projetos pareciam ter uma sombra, um eco sussurrado de algo que eu não conseguia nomear.
Não era o primeiro arranha-céu que eu projetava. Havia o Viena, elegante e moderno, o Solar das Acácias, com seus jardins suspensos para uma elite de Higienópolis. E agora o Vereda, no coração pulsante do centro expandido, prometendo luxo acessível, um refúgio para as multidões apressadas. Mas o Vereda… tinha algo de diferente. As plantas retilíneas, os ângulos precisos, a fachada de vidro espelhando o céu pálido – tudo parecia convergir para uma solidão estudada.
Minha filha, Clara, de dez anos, sentia isso. Ela não gostava de me ver trabalhando até tarde. “Pai,” ela dizia, a voz embargada pela preocupação, “você desenha prédios para as pessoas morarem, não para elas se perderem.” O abraço dela era o único antídoto para a angústia que me acometia depois de cada dia.
A responsável pela comunicação do Vereda era Laura. Uma mulher de fala rápida, sorriso fácil e olhos que pareciam guardar segredos de metrópole. Ela adorava a audácia do projeto. “Elias, você não desenha casas, você molda o futuro. O Vereda será um marco. Um lugar onde as pessoas vão querer estar.” Eu concordava em parte. Eu moldava o concreto, o aço, o vidro. O que as pessoas fariam com isso, o futuro que construiriam lá dentro, era algo que escapava ao meu controle.
Naquele dia, enquanto supervisionava a instalação das primeiras luminárias no subsolo, senti um arrepio. Uma sensação de estar sendo observado. Olhei em volta. Apenas os pedreiros, os mestres de obra, o barulho constante das máquinas. Nada fora do comum. Mas a sensação persistiu, um frio rastejando pela espinha.
Nas semanas seguintes, pequenos incidentes começaram a pontuar o cotidiano do Vereda. Ferramentas sumindo misteriosamente, depois reaparecendo em locais inesperados. Ruídos estranhos ecoando pelos corredores ainda sem acabamento. Uma sensação de déjà vu, como se aquele espaço já tivesse sido habitado por uma memória não minha. Laura, sempre pragmática, atribuía tudo ao estresse da obra, à fadiga da equipe. Eu não estava tão certo.
Comecei a revisitar minhas plantas, procurando por falhas, por algo que pudesse explicar essa inquietação. Cada linha que eu traçara, cada cálculo que eu fizera, parecia ter um duplo sentido. As escadas de emergência, projetadas para a segurança, pareciam convidar a um labirinto sem fim. As áreas de circulação, pensadas para fluidez, podiam ser perfeitamente desorientadoras no escuro. A arquitetura, que deveria abrigar e acolher, parecia estar, em algum nível sutil, arquitetando o medo.
Certa noite, acordei com a imagem vívida de um corredor estreito, escuro, com um único ponto de luz trêmula no fundo. A sensação de pânico era palpável, real, como se eu estivesse correndo por aquele espaço. Levantei-me suando frio. O reflexo no espelho do banheiro me mostrou um homem pálido, os olhos fundos. O arquiteto do terror, murmurou uma voz dentro de mim.
Decidi confrontar Laura. “Laura, você já sentiu algo estranho aqui? Uma presença?” Ela riu, mas havia um lampejo de algo em seus olhos que não era apenas diversão. “Elias, você está se entregando demais ao seu trabalho. É um prédio, não uma casa mal-assombrada.”
Mas a dúvida já estava instalada. Comecei a pesquisar a história do terreno. Um antigo cemitério? Uma construção anterior que desabou? Nada concreto. Apenas boatos, murmúrios da cidade antiga.
Na véspera da inauguração, o Vereda estava deslumbrante. As luzes suaves realçavam a imponência do edifício. A cidade, lá embaixo, cintilava como um mar de estrelas. Eu estava no terraço, sentindo o vento frio do alto, observando a multidão que começava a chegar. Laura se aproximou, o vestido elegante esvoaçando.
“Parabéns, Elias. Você fez história.”
“Será?”, respondi, meu olhar fixo nas janelas do edifício, cada uma delas um quadrado de escuridão refletindo a noite. “Eu me pergunto para quem eu fiz história.”
Clara, que estava comigo, agarrou minha mão. “Pai, vamos para casa?”
Enquanto descíamos, o elevador espelhado refletia nossos rostos. De repente, as luzes piscaram. Um silêncio estranho pairou no ar, interrompendo o burburinho da festa. Por um instante fugaz, vi. No reflexo, por trás de nós, um corredor escuro, tão familiar quanto os meus próprios pesadelos. E depois, apenas a luz normal, o som de volta. Clara apertou minha mão com mais força.
Chegamos ao saguão. A festa em seu auge. O burburinho animado, o tilintar das taças. Mas algo estava diferente. As pessoas, algumas delas, pareciam olhar para o vazio, um leve susto nos rostos, como se tivessem ouvido um chamado.
Laura me encontrou perto da saída. “Você parece perturbado, Elias.”
“Talvez eu precise de férias,” murmurei, um sorriso sem graça nos lábios.
Ao sair para a rua, o ar da noite de São Paulo me pareceu mais denso, carregado de algo indizível. Olhei para trás, para o Edifício Vereda, imponente contra o céu estrelado. Era um marco, sim. Um marco de beleza, de engenharia. Mas agora, eu sabia, era também um marco de algo mais. Algo que eu, o arquiteto, havia criado sem intenção. Algo que agora vivia, respirava, e esperava, nas entranhas do meu próprio projeto. E eu não tinha ideia do que ele realmente queria.
Por: Marina Rocha Antunes

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