Um corpo encontrado com um anel de noivado, um mistério de amor e morte na floresta.
O Silêncio das Samambaias
O cheiro úmido da mata, misturado ao mofo das folhas caídas, era o perfume habitual daquele fim de tarde. Dona Lurdes, com seu pano de prato amarrotado na cintura e os cabelos grisalhos presos num coque frouxo, resmungava baixinho enquanto varria a varanda da sua casa simples, encravada na beira da estrada de terra que levava a Pindobal. O sol, cansado, espalhava raios dourados entre as copas das mangueiras e pitangueiras, pintando o chão de sombras dançantes.
Foi um cachorro, o vira-lata caramelo de Seu Ramiro, quem deu o alarme. Latidos frenéticos, diferentes dos seus habituais latidos de saudação aos transeuntes. Curiosos, os vizinhos começaram a se aproximar. O delegado, que mais parecia um contador de padaria em dia de folga, com a barriga saliente e o bigode torto, foi um dos primeiros. Depois, Seu Ramiro, suando em bicas, o peito arfando. E, por último, com as mãos tremendo e a voz embargada, Joana, a moça da floricultura, com seus olhos sempre marejados.
O corpo estava ali, sob o manto espesso das samambaias, perto da velha figueira com raízes expostas que abraçavam a terra. Não era um corpo qualquer. Era o corpo de Camila. A moça bonita e falante de cabelos castanhos que trabalhava no banco da cidade vizinha, e que costumava vir para Pindobal nos fins de semana para ver o namorado, aquele moço de São Paulo que morava temporariamente numa casa alugada perto do rio.
O corpo de Camila estava vestido com uma calça jeans e uma blusa de algodão florido. Mas o que chamou a atenção, e fez o coração de Joana disparar feito tambor, foi o anel em seu dedo anelar. Brilhava mesmo na penumbra da mata, um pequeno diamante solitário lapidado com esmero. Um anel de noivado.
Quem viu Camila pela última vez foi sua vizinha, a Dona Gilda, que vendia tapiocas na praça. Ela disse que Camila parecia feliz, com um brilho nos olhos que não era de costume. Mencionou algo sobre um plano, uma surpresa. Mas a surpresa que o destino lhe reservou foi bem mais cruel.
O delegado, com a testa franzida, pegou o corpo com o cuidado de quem manuseia um ninho de vespas. O médico legista, um senhor pálido e com olheiras profundas, chegou minutos depois, seu carro fazendo um barulho característico na estrada esburacada. As perguntas começaram a chover: quem era o namorado? Onde ele estava? Por que Camila voltara àquela mata deserta?
Joana, com os olhos fixos na mão fria de Camila, pensava no quanto a amiga sonhava com aquele casamento. Contava os dias, os meses. Escolhia cores para a decoração, imaginava o vestido. E agora, ali, com o anel reluzindo, um ponto de interrogação sobre seu destino.
Os boatos se espalharam mais rápido que fogo em palha seca. Alguns diziam que o namorado a matara por ciúmes. Outros, que fora um assalto que deu errado, apesar de não haver sinais de luta. A família de Camila, de uma cidade distante, chegou chorando, desolada. O pai, um homem forte, mas que agora parecia desmoronar, repetia que Camila era uma menina de bem, que não tinha inimigos.
O namorado, chamado Ricardo, foi encontrado em sua casa, pálido, os olhos vermelhos de choro e insônia. Disse que eles haviam discutido na noite anterior, que Camila saíra irritada. Ele adormeceu e só soube da notícia pela manhã. O anel, disse ele, era um presente, uma surpresa que ele planejava dar na semana seguinte, durante um jantar especial. Ele mostrou a caixa vazia, o veludo escuro esperando para ser preenchido.
O mistério pairava sobre Pindobal como a névoa densa nas manhãs de julho. Um anel de noivado, promessa de um futuro que se extinguiu brutalmente na frieza da floresta. A solidão do corpo sob as samambaias, o brilho silencioso da pedra, a história que se quebrou antes mesmo de começar. Joana olhava para a mata, para a figueira centenária, e sentia um arrepio. A floresta guardava seus segredos, e o silêncio das samambaias parecia sussurrar um lamento eterno, ecoando a pergunta sem resposta que pairava no ar de Pindobal: quem, e por quê, silenciara tão cruelmente a melodia de um amor que prometia florescer?
Por: Isabela Fernandes Couto

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