O corpo de uma criança aparece em uma clareira, a imprensa vira um circo macabro em torno da descoberta.

O corpo de uma criança aparece em uma clareira, a imprensa vira um circo macabro em torno da descoberta.

O Vento que Leva os Segredos

A poeira fina, de cor ocre e impregnada de cheiro de terra seca e mato, levantava-se em redemoinhos preguiçosos com cada rajada de vento. A clareira, um círculo de terra batida onde o sol castigava sem piedade, não era lugar de brincadeiras. Era onde os meninos mais velhos de Capela Nova guardavam o cigarro escondido e onde, naquela manhã de terça-feira, a vida de todos se partiria em antes e depois.

Dona Lurdes, a comadre de voz grossa e mãos calejadas de tanto lavar roupa alheia, foi quem viu primeiro. Aos domingos, ela levava o filho mais novo, o Zezinho, para colher jabuticabas na mata. Aquele dia, o Zezinho, com seus sete anos e um talento para o desvio de atenção, correu atrás de uma borboleta azul e se afastou mais do que devia. Foi então que Dona Lurdes, com os olhos já cansados de enxergar a vida com melancolia, vislumbrou um vulto pequeno, de pés descalços, sob o emaranhado de samambaias na beira da mata.

O grito de Dona Lurdes cortou o silêncio preguiçoso da manhã. Um grito agudo, descompassado, que fez os pássaros emudecerem e os poucos cães vadios erguerem as orelhas. Em minutos, a notícia, com a velocidade de um rastilho de pólvora, espalhou-se pelas ruas de terra batida, pelas casas de telhado baixo, pelos ranchos de pescadores à beira do rio que serpenteava preguiçoso ao longe.

Mateus, o delegado de Capela Nova, um homem de rosto redondo e olhar cansado, chegou com sua caminhonete velha e barulhenta. Trazia consigo a hesitação de quem já viu demais e sentia que veria ainda mais. A cena era desoladora. Um corpo pequeno, envolto em um vestido de algodão desbotado, os cabelos escuros espalhados como um halo macabro. As pequenas mãos, fechadas, guardavam ainda a promessa de carinho que nunca mais seria dada. Era a pequena Clara, filha do Seu Agenor, o pedreiro que vivia na vila, e da Dona Marlene, a costureira que sonhava em ter um ateliê em São Paulo.

Mas o que realmente transformou a tragédia pessoal em um espetáculo cruel foi a chegada da imprensa. Primeiro, um carro discreto, com antenas estranhas, estacionou na entrada da vila. Depois, mais dois, e mais um. Rostos desconhecidos, câmeras que piscavam com uma fome insaciável, gravadores estendidos como presas. As perguntas vinham em cascata, invasivas, impacientes. “O que a senhora viu?”, “O senhor Agenor falou algo?”, “Há suspeitos?”.

Capela Nova, um lugar onde a fofoca corria solta, mas o luto era um espaço sagrado e silencioso, de repente, se viu invadida. Os moradores, acostumados à pacatez, eram agora personagens de um enredo que não escreviam. Seus rostos marcados pelo sol e pela labuta eram dissecados pelas lentes, suas dores expostas ao julgamento de quem não as sentia. A Vila se tornou um palco, e a clareira, o ponto focal de um circo macabro.

Dona Marlene, com os olhos vermelhos e o corpo trêmulo, era assediada por repórteres de programas populares, que lhe ofereciam ombros para chorar em rede nacional e perguntas sobre “a maldição que assola a família”. Seu Agenor, antes um homem orgulhoso de seu trabalho, agora era filmado enquanto escondia o rosto nas mãos, um retrato vivo da dor que a cidade inteira parecia consumir com voracidade.

Os jornalistas, em sua ânsia por um furo, construíam narrativas, espalhavam boatos. Falavam de tráfico infantil, de crimes passionais, de mistérios ancestrais da região. A pequena Clara, que adorava desenhar passarinhos e dançar descalça na chuva, tornava-se uma vítima anônima em um jogo de números e manchetes. O cheiro da terra molhada da clareira, agora misturado ao odor metálico das câmeras e ao suor assustado dos moradores, carregava a melancolia de uma história que estava sendo pervertida antes mesmo de ser contada.

Havia, no entanto, uma resistência silenciosa. Mateus, o delegado, lutava contra a maré de sensacionalismo. Ele conversava com os moradores com a delicadeza de quem desata nós em um novelo de lã. Ouvi a senhora Fátima, que vendia bolos na feira e tinha visto Clara a brincar na tarde anterior, sem nenhuma marca de desespero em seu rosto. Ouvi o Joãozinho, o filho do Seu Agenor mais velho, que murmurou algo sobre “um homem estranho” rondando a vila nos dias anteriores, mas sem dar detalhes, com a timidez peculiar de quem não quer ser o centro das atenções.

Naquela noite, enquanto as luzes dos holofotes ainda dançavam na beira da mata, iluminando o lugar onde Clara fora encontrada, um grupo de moradores se reuniu na praça central. Não havia microfones nem câmeras. Apenas o murmúrio baixo das conversas, o som dos grilos e o aroma de café coado que Dona Lurdes trouxera em sua garrafa térmica. Compartilhavam lembranças, sussurravam teorias que não eram para os ouvidos alheios, ofereciam conforto mútuo.

Um silêncio se fez quando Mateus se aproximou. Ele não trazia respostas prontas, apenas a certeza de que a verdade era mais complexa e mais dolorosa do que as manchetes queriam pintar. “A Clara era uma criança. Uma vida que foi interrompida. E o que eles fazem com isso…”, ele disse, com um suspiro que carregava o peso do mundo, “…é um sacrilégio. Mas nós sabemos quem ela era. E é essa memória que vamos defender.”

O sol nasceu na manhã seguinte, lançando raios dourados sobre Capela Nova. Os carros da imprensa, muitos deles, já haviam partido em busca de outra tragédia para explorar. Restavam alguns, ainda rondando, como abutres. Mas na clareira, o sol agora aquecia a terra onde Clara fora encontrada, e o vento, esse mesmo vento que levantava a poeira ocre, parecia levar consigo não apenas o cheiro de mato, mas também a promessa silenciosa de que, para aqueles que a amavam, a história de Clara nunca seria apenas mais uma manchete. A questão que pairava no ar, densa como a madrugada que se dissipava, era: quem, afinal, ouvira o grito mudo daquela menina? E para onde o vento a levara, de verdade?


Por: Isabela Fernandes Couto

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *