O Deserto de Mariana

O Deserto de Mariana

O calor da tarde em São Luís do Paraitinga pregava na pele como um pano úmido e pesado. Mariana, sentada na cadeira de vime que rangia a cada movimento no alpendre da casa da tia, sentia a própria respiração se tornar um esforço árduo. O ar, denso com o cheiro de terra seca e mangueiras que prometiam sombra mas só entregavam a umidade pegajosa, parecia cada vez mais rarefeito. Era um afogamento, mas ali, no chão batido, sob o sol que castigava o sertão paulista em pleno verão, onde a água era escassez e promessa distante, e não um perigo iminente.

Seus olhos, de um castanho profundo que antes refletia a luz do rio na beira da ponte, agora vasculhavam o nada. A casa, um casarão antigo de paredes caiadas, que outrora fora palco de risadas e festas animadas, agora parecia emudecida, cada objeto guardando o peso do silêncio. As cortinas floridas balançavam preguiçosamente, sem trazer o alívio do frescor.

O dilema era o de sempre, uma rocha que se formava na garganta, impedindo a passagem do ar e das palavras. A promessa de Elias, feita em meio a lágrimas e sussurros de um futuro que não chegou, pairava no ambiente como o pó que levantava do chão. “Eu vou voltar, Mari. Espere por mim. A gente constrói um futuro aqui, longe do caos da cidade.” Ela esperou. Esperou no sol escaldante, esperou nas noites frias e estreladas, esperou nas chuvas escassas que mal tocavam a sede da terra. E Elias, ah, Elias se desfez na bruma da distância, deixando para trás apenas o eco de uma voz que ela tentava desesperadamente segurar.

O som distante de um carro de boi, o coaxar insistente de um sapo escondido em algum canto úmido do quintal, os grilos que começavam sua sinfonia ao entardecer. Elementos familiares, que antes a conectavam à terra, agora a sufocavam. Cada inspiração era uma luta contra um peso invisível, como se o próprio ar se recusasse a ceder o oxigênio, exigindo um preço que ela não sabia mais como pagar. Era como estar submersa em areia movediça, onde cada movimento, em vez de libertá-la, a afundava ainda mais.

Sua tia, Dona Lurdes, de mãos calejadas e coração generoso, tentava trazer o alívio com um copo d’água gelada, um pão de queijo quentinho. Mas o gesto, embora terno, parecia apenas realçar a desolação. Mariana sentia o líquido descer pela garganta seca, um breve alívio que logo se dissipava, a sede insaciável voltando com força redobrada. Era a sede de Elias, a sede de um amor que se perdeu, a sede de um futuro que nunca brotou.

Ela fechou os olhos, buscando um refúgio em sua própria mente. Lembrou-se do dia em que Elias a levou para o rio, das mãos que se entrelaçavam enquanto flutuavam nas águas límpidas. Onde estava essa água agora? Parecia que o rio havia secado, deixando para trás apenas a lembrança de uma leveza que ela nunca mais sentiria.

O sol começou a se pôr, pintando o céu de tons alaranjados e rosados. Um espetáculo de beleza que, para Mariana, era apenas mais um lembrete do tempo que passava, e do vazio que ele deixava. Ela se levantou devagar, sentindo as pernas bambas, o coração batendo em um ritmo descompassado. O peso em seu peito parecia ter ganhado forma, tornando-se tangível.

Caminhou até a beirada do alpendre, olhando para a estrada de terra que se perdia na distância. Talvez, apenas talvez, se ela corresse até o fim dela, encontrasse um lugar onde o ar fosse mais leve, onde a respiração voltasse a ser um ato natural e não uma batalha constante. Ou talvez, o deserto onde ela se encontrava fosse interno, e não houvesse estrada capaz de levá-la para longe de si mesma. A sensação persistia, um silêncio gritante no meio de toda a quietude, a certeza de um afogamento sem água, no coração de um verão inclemente.


Por: João Pedro Silveira

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