O Mapeamento de Clara

O Mapeamento de Clara

A marca apareceu no pulso esquerdo de Clara numa terça-feira chuvosa de maio. Era pequena, do tamanho de uma lentilha, de um tom de cinza ligeiramente mais escuro que a sua pele clara e uniforme. A princípio, ela a ignorou, atribuindo a uma picada de inseto esquecida ou ao atrito da pulseira de prata que usava sempre.

Mas a marca não sumiu. Pelo contrário, começou a expandir-se, lenta e insidiosamente. O cinza clareou, tornando-se mais avermelhado nas bordas, como um hematoma que se recusa a curar. Clara, engenheira de tráfego acostumada a lidar com o imprevisível do trânsito carioca, sentiu um frio na espinha. Aos 32 anos, sua vida era um equilíbrio meticuloso: o trabalho desafiador, o apartamento alugado com vista para a baía que amava, os jantares de quinta com seu namorado, Leo, um músico de alma boêmia.

“Você viu isso?” perguntou a Leo, numa noite em que ele a visitou. Estavam na cozinha, o aroma de feijão cozinhando pairando no ar. Ela esticou o braço, a luz fraca do lustre realçando a mancha que agora se parecia com um mapa abstrato, com ramificações finas que se estendiam sob a pele.

Leo, sempre um pouco distraído, aproximou o olhar. “Hum… uma pinta nova? Deve ser da gravidez que você não quer admitir”, ele brincou, arrancando um sorriso tenso dela. Mas a brincadeira caiu mal. A marca parecia ter vida própria, um intruso silencioso em seu corpo.

As semanas seguintes foram um borrão de ansiedade contida. Clara se pegava observando a marca em cada oportunidade: no espelho do banheiro, no reflexo da tela do computador, sob a luz do sol na praia de Copacabana, onde ela e Leo tentavam manter a normalidade. A mancha crescia, ganhando novas nuances, formas que lembravam rios sinuosos, continentes desconhecidos. Ela sentia um leve prurido, uma sensação de formigamento que não aliviava.

Tentou camuflar. Usava relógios maiores, mangas compridas mesmo no calor abafado, band-aids que logo se descolavam ou ficavam evidentes. Os olhares curiosos na rua a incomodavam mais do que nunca. Seria ela uma doença? Um sinal de algo maior? A incerteza era um veneno lento.

Os dilemas se acumulavam. Contar para a mãe, que vivia em Minas Gerais, uma senhora supersticiosa que veria aquilo como um mau agouro? Procurar um médico, expor o que parecia ser o início de um fim? E Leo, como ele reagiria se aquilo fosse algo sério? O medo de ser vista como doente, de gerar pena ou repulsa, a paralizava.

Num sábado, enquanto organizava as partituras antigas de Leo em sua casa, ele a pegou observando a marca com uma intensidade quase febril. Seus dedos traçavam as linhas irregulares, como se tentasse decifrar uma linguagem secreta.

“Clara”, ele disse, a voz suave, diferente do habitual tom despreocupado. “Você não está bem. O que está acontecendo?”

Ela hesitou, o nó na garganta apertando. Olhou para o rosto dele, para os olhos profundos e expressivos que tantas vezes a confortaram. A decisão, por mais aterradora que fosse, precisava ser tomada. Respirou fundo, o cheiro de papel velho e café invadindo suas narinas.

“Eu não sei o que é, Leo. Mas está crescendo.”

A marca continuava seu mapeamento silencioso, transformando a pele de Clara num território desconhecido. O que essa nova geografia revelaria? Seria um aviso, uma transformação, ou simplesmente uma estranha e inexplicável mutação? O futuro, como a própria marca, era uma tela em branco, aguardando o próximo traço.


Por: Marina Rocha Antunes

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