O reflexo distorcido em superfícies molhadas.

O reflexo distorcido em superfícies molhadas.

O Reflexo Distorcido em Superfícies Molhadas

O cheiro acre de chuva e terra molhada grudava nas narinas de Dona Aurora, um perfume familiar que trazia de volta tardes de infância e um rio de lembranças que a correnteza do tempo tentava, em vão, levar embora. A garoa fina caía mansa sobre o asfalto rachado da Rua das Magnólias, transformando cada buraco em um espelho improvisado, onde o mundo se reconfigurava em formas borradas e cores diluídas.

Aurora, com os ombros curvados sob o peso do guarda-chuva vermelho desbotado, apressava o passo. O trabalho no salão de beleza já havia acabado há horas, mas a decisão de dar a volta pela feira, mesmo com o tempo instável, havia sido um impulso incontrolável. Talvez fosse a saudade do aroma de coentro fresco, do burburinho das negociações, ou simplesmente a necessidade de sentir a vida pulsando fora das paredes assépticas do seu pequeno apartamento.

Seus olhos, outrora vibrantes como os azuis das hortênsias que floresciam timidamente em seu canteiro, agora carregavam a melancolia dos dias que se foram. Aos 58 anos, a vida a moldara, suavizando as arestas, mas também deixando cicatrizes invisíveis. A perda de Seu Mário, seis anos atrás, ainda era um nó na garganta, um espaço vazio na cama que nem o sol mais forte conseguia preencher.

Ao passar por uma poça particularmente grande, o reflexo do seu rosto a surpreendeu. Era como se o espelho d’água a mostrasse numa versão ancestral, uma jovem de pele lisa e olhos cheios de sonhos, alheia às tempestades que a esperavam. A saudade a apertou o peito, um soco silencioso que a fez parar por um instante, alheia à gente apressada que a contornava.

Encostada em um poste de luz enferrujado, observava as outras figuras que se espelhavam ali: o homem apressado com o jornal molhado debaixo do braço, o reflexo de seu rosto contraído pela pressa; a menina que saltava em um pé só, seu pequeno reflexo agigantado e distorcido pela água em movimento; o carro que passava, criando ondas que desfiguravam tudo, como se o mundo real fosse apenas uma sugestão frágil.

Um jovem de boné virado para trás, a mochila pendendo de um ombro, parou a alguns metros de distância, também absorto na visão aquática. Ele tinha um olhar vago, quase perdido, mas havia algo em sua quietude que ressoava com a de Aurora. Ele não parecia estar se vendo, mas talvez estivesse vendo outra coisa, ou a falta dela.

Aurora sentiu um impulso estranho, uma vontade de compartilhar aquele momento de introspecção silenciosa. Respirou fundo, o ar carregado de umidade e de uma paz estranha. Deu um passo em direção ao rapaz, o som de seus sapatos molhados quebrando o silêncio. Ele ergueu os olhos, surpreso.

“Parece que a gente encontra outras vidas nesses reflexos, não é?”, Aurora disse, a voz embargada pela emoção repentina.

O rapaz, com um sorriso discreto, assentiu. “É como se o que a gente é agora fosse só uma sombra do que já foi. Ou do que poderia ter sido.”

Eles ficaram ali, sob a chuva fina, dois estranhos unidos por um momento de clareza efêmera, observando suas próprias histórias se contorcerem nas poças d’água. A conversa fluiu com a naturalidade de quem se conhece há tempos, sobre perdas e recomeços, sobre a teimosia da esperança em dias nublados, sobre a beleza fugaz dos momentos simples.

Quando a garoa começou a se intensificar, tornando os reflexos quase irreconhecíveis, eles se despediram. Não trocaram nomes, nem números. Apenas um aceno de cabeça e a certeza de que, por um breve instante, em uma rua qualquer de uma cidade qualquer, dois fragmentos de vida haviam se encontrado e se reconhecido na imperfeição dos espelhos molhados. Aurora continuou seu caminho, o guarda-chuva vermelho agora parecendo um pouco menos desbotado, o peso em seus ombros mais leve. E o rapaz, com um suspiro, voltou a caminhar, talvez com um novo reflexo a desvendar em seu próprio caminho. O que viria a seguir, para cada um deles, era uma página em branco, com a promessa silenciosa de que, mesmo nos reflexos distorcidos, é possível encontrar um vislumbre de verdade.


Por: Ricardo Soares Guedes

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