O Eco Silencioso da Serra
O ar da noite em Vila Esperança tem um cheiro diferente. Um misto de terra molhada, alecrim silvestre e, naquela noite específica, um toque metálico, quase elétrico. Laura, encolhida sob o cobertor gasto, sentia isso na pele, um arrepio que não vinha só do frio que teimava em se instalar mesmo no início do verão. A velha caixa de som da cozinha, um trambolho marrom que seu avô insistia em manter funcional, chiava baixinho. Era pra ter música, canções sertanejas que a embalavam em tardes preguiçosas, mas naquela madrugada, era outra coisa.
Era a Rádio Serra Encantada.
Ninguém na cidade se lembrava quando ela havia voltado ao ar. Ou se sequer havia sumido. Simplesmente estava lá, uma voz rouca e estática que, em horários incertos, transmitia… fragmentos. Fragmentos de conversas antigas, trechos de programas de rádio esquecidos, e às vezes, algo que soava como um lamento.
Laura, com seus vinte e poucos anos, já sentia o peso da Vila nas costas. O pai, Seu Osvaldo, sempre ocupado com o açougue, a mãe Dona Helena, sempre absorta em seus bordados e preces. A vida corria mansa, quase parada, como o rio que serpenteava a cidade. Mas dentro dela, uma inquietação borbulhava. A Rádio Serra Encantada parecia dar voz a essa inquietude.
Naquela noite, a voz na caixa de som não era só estática. Havia uma melodia baixa, quase inaudível, acompanhada por sussurros indistintos. Laura se aproximou, o coração batendo descompassado. De repente, uma voz clara, uma voz de mulher com um sotaque que ela não reconheceu, disse: “Ele não vai voltar, Maria. Não espere mais.”
Laura gelou. Maria. A avó de sua amiga Clara, falecida há anos, era Maria. E o pai de Maria, o Seu José, que havia partido para trabalhar em outra cidade e nunca mais voltara, também era assunto constante nas rodas de conversa da Vila.
Nos dias seguintes, a Rádio Serra Encantada se tornou a obsessão de Laura. Ela passava horas sentada ao lado da caixa de som, esperando, ouvindo. Descobriu que as vozes eram ecos. Ecos de momentos perdidos no tempo, como se a velha frequência da rádio tivesse se tornado um portal para memórias presas na atmosfera da serra. Ouviu trechos de brigas familiares, declarações de amor nunca entregues, despedidas dolorosas.
Uma noite, a voz de um homem, áspera e cansada, ecoou: “A colheita foi ruim de novo. A gente vai ter que ir, Ana.” Laura fechou os olhos. Ana. A sua bisavó. Ela sabia da história. Sua bisavó Ana e seu bisavô fugiram da fome em uma seca terrível, deixaram tudo para trás em busca de um futuro melhor. A mãe de Laura sempre lamentava nunca ter conhecido a avó.
A rádio começou a mexer com Laura. Eram verdades dolorosas, não ditas, esquecidas. Ela começou a olhar para os mais velhos da Vila com outros olhos. Via a saudade escondida no olhar de Seu Osvaldo, que nunca falava de seu pai. A rigidez de Dona Helena, que raramente mencionava a sua mãe.
Uma tarde, enquanto arrumava uma caixa antiga no sótão, Laura encontrou um diário de capa puída. Pertencia à sua bisavó Ana. As páginas amareladas narravam a vida difícil, a esperança de um recomeço, e um amor intenso por um homem chamado “meu querido Pedro”. As datas batiam com os fragmentos da rádio.
A Rádio Serra Encantada parecia querer contar a história que a Vila tentava esquecer. A história das perdas, dos sacrifícios, dos amores que se foram. Laura sentia uma responsabilidade crescente. Era como se a rádio estivesse chamando-a para ser a guardiã dessas memórias.
Certo dia, a voz na rádio era mais clara do que nunca. Era a voz de uma menina, infantil e assustada: “Mamãe, onde você foi? O papai disse que você ia voltar.” O som de choro abafado, e então, o silêncio. Laura sentiu um aperto no peito tão forte que precisou sair para tomar ar.
Ela caminhou até o cemitério, um lugar que costumava evitar. A grama alta cobria as lápides desgastadas pelo tempo. Procurou por nomes, datas. E então, seus olhos pousaram em um pequeno túmulo de criança, esquecido no canto. A inscrição, quase ilegível, dizia: “Clarinha. Parte do céu. 1978.”
Clarinha. O nome da sua tia. A irmã mais velha de sua mãe, que morreu de uma doença desconhecida ainda bebê. A história era contada em sussurros, um trauma que Dona Helena nunca superou.
Naquela noite, a Rádio Serra Encantada estava muda. A estática, o chiado familiar, mas nenhuma voz. Laura sentou-se ao lado da caixa de som, o diário de Ana em seu colo. Ela percebeu que as mensagens não eram perturbadoras. Eram apenas… verdadeiras. Eram os ecos das vidas que moldaram a Vila Esperança, as dores e os amores que se tornaram parte do chão que pisavam.
Ela fechou os olhos, imaginando as vozes que um dia preencheram o ar. Talvez a rádio não fosse um portal para o passado, mas sim um convite para que o presente ouvisse, para que as histórias não fossem silenciadas, para que a saudade fosse compreendida, e talvez, apenas talvez, para que as feridas pudessem começar a cicatrizar. A Rádio Serra Encantada podia ter se calado naquela noite, mas o eco das suas mensagens ressoava em Laura, e ela sabia que, de alguma forma, precisava continuar a transmiti-las.
Por: João Pedro Silveira

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