Terra em Quarto
O cheiro chegou primeiro, um perfume terroso, úmido, que não pertencia àquele quarto. Maria Clara abriu os olhos, a luz fraca da manhã filtrando pelas venezianas empoeiradas. Sentou-se na cama, o lençol amarrotado, e farejou o ar. Era inconfundível: terra recém-revolvida.
Não era o cheiro do jardim lá fora, florido e vibrante. Era algo mais profundo, mais denso, um aroma que trazia consigo a promessa de vida e, ao mesmo tempo, de um passado enterrado. A cama estava no seu quarto de solteira, um refúgio que ela dividia com caixas de livros antigos, um guarda-roupa abarrotado e a memória persistente de Antônio.
Antônio. O nome ecoou no silêncio, pesado como a própria terra. Ele tinha as mãos calejadas, a pele marcada pelo sol, e um amor peculiar por cuidar do que brotava. Juntos, eles tinham sonhado com uma casa com quintal, onde Antônio poderia plantar as suas hortaliças, e Maria Clara, as suas rosas. O sonho fora interrompido, não pela terra, mas pela burocracia, pelas contas, pela vida que insiste em ser mais implacável que a natureza.
Ela desceu da cama, os pés descalços tocando o piso frio. O cheiro era mais forte perto da estante de livros. Ali, entre edições gastas de Clarice Lispector e Drummond, havia um vaso. Um vaso de barro simples, que ela não lembrava de ter visto ali antes. Dentro dele, um pequeno monte de terra escura e úmida. E em cima, quase como uma oferenda, uma única folha verde e vibrante, ainda com gotas de orvalho.
Seu coração apertou. Quem? Como? E por quê? A porta do quarto estava trancada por dentro, como sempre. Ninguém podia ter entrado. A não ser que… a não ser que fosse um fantasma. Mas Maria Clara não acreditava em fantasmas. Acreditava em presságios, em sinais, em coisas que a alma insiste em nos enviar quando a razão se recusa a escutar.
Olhou para a folha com intensidade. Lembrava-se de Antônio, com os dedos sujos de terra, mostrando-lhe as primeiras mudas de manjericão, os pequenos caules tenros que prometiam fragrância e sabor. Ele dizia que cada folha era uma vitória, um pedaço de esperança que se desdobrava diante deles.
Uma lágrima rolou pelo seu rosto, quente e salgada. O cheiro de terra não era assustador. Era melancólico. Era uma saudade em forma de aroma. Era a terra que Antônio tanto amava, voltando para o seu espaço, para o seu quarto, como se quisesse dizer algo.
Pegou o vaso com as duas mãos. A terra estava fresca, viva. A folha, apesar de solitária, irradiava uma força que ela não sentia há meses. Ela não sabia quem tinha deixado aquele presente, ou como. Mas sabia que não era por acaso.
Ali, no silêncio abafado do quarto, com o cheiro de terra recém-revolvida preenchendo o ar, Maria Clara sentiu um novo broto despontar em seu peito. Um broto pequeno, frágil, mas inegavelmente vivo. E pela primeira vez desde que Antônio se fora, ela sentiu que talvez, apenas talvez, ainda houvesse terra para revolver e flores para plantar. E o vaso, com a sua única folha vibrante, era a prova de que a vida, de alguma forma, sempre encontra um jeito de voltar.
Por: João Pedro Silveira

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