O Sussurro das Páginas Esquecidas
O cheiro de poeira antiga e papel amarelado era um bálsamo para Alice. Não o pó ralo e incômodo, mas a substância densa e acolhedora da Biblioteca Municipal Adalgisa Nery, em algum lugar do interior de Minas. Ela passava os dedos nas lombadas desgastadas, cada livro uma promessa de fuga, uma porta para outros tempos e lugares. Alice, com seus vinte e poucos anos e um futuro incerto que pairava sobre ela como a umidade do ar antes da chuva, encontrava naquelas estantes seu refúgio mais sincero.
Certo dia, enquanto organizava uma seção esquecida de obras de história local, sua mão roçou em uma prateleira que parecia… solta. Um leve empurrão e um pedaço da estante cedeu, revelando uma escuridão profunda e um odor diferente, mais pungente, quase metálico. Seu coração deu um salto, um misto de medo e fascinação. Era um portal.
Com a luz fraca de seu celular, Alice adentrou o espaço. Era pequeno, mais um cubículo do que uma sala, e abarrotado de livros. Mas não eram os volumes grossos e encadernados em couro que ela costumava manusear. Eram menores, mais frágeis, alguns pareciam escritos à mão. A curiosidade a consumiu. As capas eram discretas, sem títulos chamativos, mas um arrepio percorreu sua espinha ao notar os símbolos que pontilhavam algumas delas, quase como assinaturas secretas.
Ela pegou um, com uma capa de tecido desbotado, e abriu. As letras dançavam diante de seus olhos, em uma língua que ela não reconhecia de imediato, mas que ressoava em uma parte profunda de sua memória. As palavras falavam de revoltas esquecidas, de saberes que deveriam ser suprimidos, de vozes que a história oficial teimosamente calava. Havia um livro sobre a verdadeira natureza de um mito local que todos aceitavam sem questionar, outro que detalhava práticas curativas ancestrais consideradas “bruxaria”, e um mais sombrio, com ilustrações perturbadoras, que parecia versar sobre o lado mais sombrio da alma humana, algo que os discursos atuais evitavam com afinco.
Alice sentiu-se exposta. Era como se aquelas páginas, impregnadas de tempo e de um conhecimento proibido, estivessem observando-a, testando-a. O dilema era palpável: dever ela ignorar essa descoberta, devolver os livros ao seu silêncio, preservar a ordem, a tranquilidade que ela mesma buscava? Ou deveria abrir a porta para o que quer que aquele conhecimento trouxesse, mesmo que fosse desconfortável, perigoso?
A biblioteca lá fora continuava seu burburinho habitual: o virar de páginas, o sussurro das conversas, o tilintar ocasional da campainha da porta. Mas ali, naquele recanto escondido, o tempo parecia ter parado. Alice sabia que algo havia mudado para sempre. O peso daqueles livros, o peso da verdade (ou de uma verdade alternativa), repousava em suas mãos. Ela podia simplesmente fechar a passagem e esquecer. Ou podia… aprender. O que aqueles sussurros das páginas esquecidas a levariam a fazer? E quem havia deixado tudo aquilo ali, guardado por tanto tempo? A resposta, ela sentia, poderia ser tão assustadora quanto as próprias palavras.
Por: Isabela Fernandes Couto

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