A Fenda no Tempo

A Fenda no Tempo

O sol da tarde, um sol preguiçoso de setembro, espreguiçava-se pelas calçadas de São Paulo, pintando os prédios cinzas com um dourado morno que, em breve, seria devorado pela noite. Era nesse crepúsculo que seu Seu Joaquim aparecia, seu carrinho de madeira rangendo como um velho amigo reclamando das juntas. Seu Joaquim não era um vendedor qualquer. Ele não gritava preços, não esfregava panos brilhantes em objetos de plástico duvidoso. Ele apenas… oferecia.

Seu estoque era modesto. Uma carteira de couro que parecia ter visto mais verões que ele. Um pequeno espelho de bolso, o aro um tanto amassado. Um chaveiro em formato de passarinho, o esmalte descascado em algumas asas. Itens que, à primeira vista, eram banais, quase esquecidos. Mas o preço… ah, o preço era a reviravolta.

“Aquela carteira”, ele disse uma vez para a Dona Clara, a dona da quitanda, com a voz baixa, um sussurro carregado de memória, “vale o arrependimento daquela vez que você não disse adeus para a sua mãe no hospital.”

Dona Clara parou de empilhar as laranjas, o suor grudando em sua testa. Aquele dia… ela lembrava. A correria, o telefone que tocou tarde demais, a culpa que a corroía por dentro até hoje. Ela olhou para a carteira. O couro era macio, mas parecia carregar um peso invisível. “Seu Joaquim”, ela gaguejou, “isso é…”.

“É o que a vida cobra”, ele completou, sem sorrir, sem julgar. “Se o senhor(a) achar que o valor é justo, leva. Se não, a gente espera o próximo encontro.”

Ele não pressionava. Apenas colocava os objetos em cima do seu carrinho, os posicionando com um cuidado quase reverente, como se cada um fosse um relicário de algo precioso e irrecuperável. E as pessoas compravam. Compraram o chaveiro de passarinho por “o dia em que você deixou a sua prima esperando no cinema, sabendo que ela estava mal, só pra não ir sozinho”. Compraram o espelho de bolso pelo “silêncio que você impôs quando quis gritar a verdade para o seu chefe”.

Havia uma jovem, a Ana, que trabalhava no escritório ali perto. Um dia, ela viu Seu Joaquim com um pequeno caderno de capa puída. “Esse caderno”, ele murmurou, os olhos fixos no horizonte que se tingia de violeta, “custa a coragem que você não teve para pedir aquele aumento.” Ana sentiu um arrepio. Ela sabia, no fundo da alma, que ele tinha razão. Ela estava ali há três anos, produzindo como ninguém, e o medo de parecer ousada a mantinha presa. Naquele dia, ela não comprou o caderno. Mas no dia seguinte, voltou. O caderno estava lá.

“O preço ainda é o mesmo?”, ela perguntou, a voz embargada.

Seu Joaquim assentiu. “O arrependimento não muda de valor com o tempo, meu bem. Só se acumula. Ou se transforma em força.”

Ana pegou o caderno. Era leve, mas parecia conter o peso de todos os não ditos e todas as oportunidades perdidas. Ela o guardou na bolsa e sentiu algo, não um alívio, mas um aquecimento estranho no peito. Algo que a impulsionava.

Ninguém sabia de onde vinha Seu Joaquim, nem para onde ia. Ele surgia com a brisa do fim de tarde, desaguava nas ruas do centro e desaparecia com as primeiras estrelas. E os objetos, aqueles fragmentos de vidas alheias, deixavam um rastro de reflexão, de questionamento. De um preço que, assustadoramente, se revelava o verdadeiro valor daquilo que tínhamos deixado para trás, ou daquilo que nos impedia de seguir em frente. A pergunta que pairava no ar, tão palpável quanto o cheiro de poluição e incenso das ruas, era: qual era o seu preço? E quando você estaria pronto para pagar?


Por: Ricardo Soares Guedes

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