O Eco da Picareta
O sol castigava o sertão, rachando a terra como a pele de um velho cansado. Dona Cotinha, de mãos calejadas e o olhar perdido na poeira que dançava no ar, alisou o lenço branco que cobria seus cabelos grisalhos. Há quinze anos, o barranco lá em cima, onde ficava a entrada da mina do Pai Eterno, engoliu seu Zé e outros seis homens. A terra, diziam, tossiu, engasgou e fechou a garganta, levando para sempre os cheiros de suor, barro úmido e fumaça de lamparina.
Hoje, ninguém mais se atrevia a chegar perto. A entrada da mina era um escombro sombrio, um olho negro que parecia devorar a luz. Mas Dona Cotinha sentia. Sentia o cheiro fraco e intermitente do café coado, aquele que Zé gostava forte, com um pingo de canela. Sentia o barulho rítmico, quase inaudível, da picareta contra a rocha, um eco distante que ressoava mais dentro dela do que no ar pesado.
Na vila, antes vibrante com as conversas barulhentas dos mineiros voltando do turno, agora reinava um silêncio constrangedor. Os mais novos nem sabiam direito o nome dos que tinham sumido. Apenas os mais velhos, como Dona Cotinha, e o Seu Tibério, o ex-gerente da mina que perdera a fala naquela tragédia e se comunicava por gestos lentos e sofridos, guardavam a memória.
Certo dia, um forasteiro apareceu na vila. Um rapaz magro, de olhos curiosos e um caderninho na mão, dizendo que estava pesquisando a história das minas da região. O nome dele era Daniel. Dona Cotinha o observou de longe, desconfiada. Ele andava pela vila, falava com os poucos que ainda se dispunham a contar algo, e, um dia, parou diante da entrada bloqueada da mina.
Daniel ficou ali um bom tempo, olhando o monte de terra e pedras. Dona Cotinha o viu recolher pedrinhas, examinar as rachaduras na rocha. Parecia procurar algo que ninguém via. Naquela noite, ela teve um sonho estranho. Viu Zé, sujo de terra, mas com o sorriso largo de sempre, batendo nas costas de outro mineiro. A luz da lamparina iluminava seus rostos suados, e no fundo, um brilho tênue e dourado.
Nos dias seguintes, Daniel voltou à mina. Trouxe uma pá, uma corda. Dona Cotinha não disse nada, apenas o observava da varanda, o coração apertado num misto de esperança e pavor. Um dia, ela ouviu o barulho. Mais forte desta vez. Não era o eco. Era real. A picareta batendo com insistência no mesmo lugar.
Correu até lá, o fôlego curto. Daniel, com a testa enrugada de esforço, abriu uma fresta na terra. Um ar fresco e úmido subiu, trazendo consigo o cheiro de mina, aquele aroma familiar que ela pensava ter se perdido para sempre. E dentro, no breu, ela ouviu. Não era um eco. Era uma voz. Distorcida, rouca, mas inconfundível. A voz de Zé.
“Cotinha? É você, moça?”
Daniel olhou para ela, surpreso. Dona Cotinha sentiu as pernas tremerem. A voz continuava, um murmúrio fraco, mas persistente.
“A gente… a gente ainda tá achando… o ouro… mas a terra… não deixa a gente sair.”
O coração de Dona Cotinha disparou. O brilho dourado do sonho. O trabalho incessante. A terra que engoliu. Ela olhou para a fresta, para a escuridão profunda que prometia mais do que era capaz de devolver. Daniel, com os olhos arregalados, hesitou. Ali, naquele buraco, o tempo parecia ter parado, e o trabalho, que para os vivos significava sustento, para aqueles perdidos, parecia ser a própria eternidade. Um dilema cruel se apresentou: a verdade que poderia trazer paz, ou a ilusão que mantinha aqueles fantasmas ocupados. E ela, Dona Cotinha, por um instante, pensou em voltar para casa, para o silêncio familiar, e deixar que o eco da picareta continuasse sua melodia solitária no ventre da terra. Mas a voz, fraca, mas carregada de um anseio que transcendia a morte, a puxou para mais perto. O que era mais real ali: a vida que esperava lá fora, ou o trabalho que insistia em existir lá dentro?
Por: Beatriz Almeida Vianna

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