Um podcast investigativo sobre uma série de acidentes bizarros em uma infraestrutura recém-construída, com áudios de depoimentos coletados no local que sugerem uma presença invisível.
O Eco do Concreto
O ar da madrugada em Porto Velho ainda carregava o cheiro úmido da chuva de ontem, uma promessa de calor que logo se instalaria. Nas ruas desertas, a iluminação pública, recém-instalada, projetava sombras longas e trêmulas sobre o asfalto impecável da nova avenida. Era ali, naquele cenário de progresso tecnológico e desafios cotidianos, que a equipe do “Vozes do Mistério” buscava uma resposta.
Sofia, a âncora do podcast, sentia o peso daquele caso. Não era o primeiro acidente estranho em menos de um mês, nem o primeiro foco de investigações paranormais que ela cobria. Mas algo na forma como os relatos se acumulavam, na repetição dos detalhes absurdos, a incomodava. O viaduto, uma obra grandiosa financiada com verbas federais, parecia ter ganhado uma vida própria, sinistra.
“Estamos aqui, no local onde o senhor Osvaldo Silva, motorista de aplicativo, relatou ter seu carro subitamente ‘empurrado’ para fora da pista, sem motivo aparente”, a voz de Sofia, amplificada pelos fones, ecoava no silêncio. Ela se abaixou, aproximando o microfone de um pedaço de concreto lascado que jazia na beira da estrada. “O relato dele é de que sentiu uma força invisível, como um sopro forte, empurrando o carro para o lado. Testemunhas não viram nada. A perícia apontou falha mecânica não detectada, mas a família de Osvaldo insiste…”
O som chiado de uma gravação antiga preencheu os fones de ouvido de toda a equipe no estúdio improvisado em um hotel simples, com cheiro de desinfetante e café requentado. Era a voz de Osvaldo, embargada:
**[ÁUDIO 1]**
Osvaldo Silva: “Eu tava ali… no meu carro, sabe? Com o rádio ligado. De repente, senti uma coisa fria. Um vento gelado, dentro do carro fechado. E o volante… parece que alguém segurou e puxou. Meu carro deu um solavanco, foi pra fora. Eu juro, Dona Sofia, parecia que alguém tava me empurrando pra fora da vida.”
Sofia suspirou, olhando para o caderno onde anotava as falhas e as semelhanças. A engenheira responsável pela obra, Ana Clara, uma mulher pragmática e visivelmente exausta, já havia sido entrevistada duas vezes.
**[ÁUDIO 2]**
Ana Clara: “Sofia, o viaduto foi construído dentro de todos os protocolos. Estamos falando de engenharia de ponta. Os materiais foram inspecionados. Não há nenhuma falha estrutural. Os acidentes? Coincidências trágicas. Infelizmente, o trânsito é perigoso. Pessoas imprudentes, problemas mecânicos… O que mais você quer que eu diga?”
“Mas e o relato da Maria Luzia?”, a voz de Pedro, o produtor, soou no comunicador, um pouco impaciente. “O da queda da moto dela no meio da pista?”
Sofia assentiu.
**[ÁUDIO 3]**
Maria Luzia: “Eu vinha tranquilamente. Tava escuro, mas eu conheço aquele trecho. De repente, o pneu da moto… ele rodou. Não foi derrapagem normal. Foi como se tivesse sido levantado, jogado pro alto. E aí eu caí. Senti um arrepio na espinha, um cheiro de terra molhada, mesmo ali no concreto. Um cheiro forte, sabe? De coisa antiga, enterrada.”
A gravação terminava com um grito abafado de dor e o som metálico de algo se arrastando.
“Terra molhada… Osvaldo falou de frio. Ana Clara insiste em falhas mecânicas. Mas e a sensação que todos eles descrevem, esse ‘algo mais’?”, Sofia murmurou para si mesma, passando os dedos pela textura áspera do concreto.
A obra havia sido construída sobre uma área que, décadas atrás, abrigava um antigo cemitério improvisado, um lugar esquecido nas margens da cidade em crescimento. Algo que Ana Clara descartava como folclore urbano, mas que os moradores mais antigos da região mencionavam com um misto de respeito e receio.
O próximo áudio era de um operário, Miguel, que trabalhava na construção. Sua voz era um sussurro rouco, cheio de medo.
**[ÁUDIO 4]**
Miguel: “Ah, Dona Sofia… a gente ouvia coisa lá. À noite. Uns gemidos, uns resmungos. A gente falava que era o vento, o barulho das máquinas. Mas era diferente. Parecia que… as coisas debaixo da terra tavam se mexendo. Senti várias vezes umas pancadas no meu capacete, sem ninguém. E o pior foi quando o cabo de aço… ele arrebentou sem motivo. Por pouco o André não caiu lá de cima. Ele disse que sentiu uma mão no ombro dele um segundo antes.”
Sofia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Não era apenas uma obra de engenharia. Era um lugar que guardava histórias, murmúrios do passado que pareciam se manifestar em acidentes inexplicáveis.
“E se não forem falhas mecânicas?”, Pedro perguntou, a voz mais baixa agora. “E se a terra, a história que está debaixo desse concreto todo, estiver… protestando?”
Sofia olhou para a imensidão escura do viaduto, para as luzes distantes da cidade que pareciam tímidas diante daquela estrutura imponente. O cheiro de asfalto quente e terra úmida pairava no ar. Não havia respostas fáceis. Apenas os ecos de vozes assustadas, presas entre o concreto do progresso e os fantasmas de um passado negligenciado. A investigação continuaria. A pergunta que ecoava nos fones de ouvido era: quem mais falaria antes que as sombras do viaduto engolissem mais uma vida?
Por: Catarina de Assis Mendonça

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