Um documentário inacabado sobre desaparecimentos em uma pequena cidade costeira, revelando um padrão perturbador em relatos de moradores sobre a maré.
# A Maré que Leva os Nossos
**Uma tragédia silenciada ecoa nas praias de Porto Sereno, e um documentário inacabado lança luz sobre o inexplicável.**
Porto Sereno. O nome soa como um bálsamo, uma promessa de paz sob o sol inclemente do litoral nordestino. Mas para muitos, essa serenidade foi roubada, levada pela mesma força que molda a paisagem: a maré. Um projeto documental, iniciado com a intenção de celebrar a vida dos pescadores de Porto Sereno, transformou-se, sem aviso, em um registro sombrio de desaparecimentos inexplicáveis, cujos relatos, guardados a sete chaves pela comunidade, parecem convergir para um padrão assustador: a influência da maré em noites de lua cheia.
“A gente tentava filmar a beleza da pesca, a fartura que o mar nos dava”, suspira Joana Silva, a diretora amadora por trás do projeto que hoje repousa, inacabado e quase esquecido, em seu computador. Joana, agora dona de um pequeno armarinho na rua principal, ainda carrega a culpa e a angústia. “Mas logo começaram os boatos. As perguntas sem resposta. As pessoas com medo de olhar para o mar.”
Os desaparecimentos não são novos em Porto Sereno. São mais antigos que as redes de pesca mais resistentes. Mas nunca houve uma conexão tão clara, um fio que ligasse tantas pontas soltas. As histórias, sussurradas em bares úmidos e em conversas apreensivas à beira-mar, pintam um quadro inquietante.
“Meu pai sumiu numa noite assim, lua grande, mar grosso”, conta Seu Antônio, 72 anos, com os olhos marejados fixos na linha do horizonte. “Ele era pescador experiente, conhecia cada correnteza. Ninguém acredita que ele se afogou. Disseram que foi a maré que chamou.” A “maré que chamou”. Essa frase, repetida com diferentes tons de medo e resignação, tornou-se um código.
Maria Clara, uma jovem estudante de antropologia que visitava a cidade para um trabalho de campo, começou a registrar os relatos com um caderno e uma câmera simples. “Eu buscava tradições, histórias locais”, confessa, sua voz trêmula. “E encontrei um pesadelo. As pessoas descreviam um magnetismo estranho em noites de lua cheia. Uma sensação de ser atraído para a água, de ouvir cantos que ninguém mais ouvia. As crianças eram as mais afetadas. Contavam sobre ‘mulheres do mar’ que as chamavam de dentro das ondas.”
O documentário de Joana, interrompido abruptamente após o desaparecimento de um de seus próprios entrevistados, Seu Francisco, um pescador conhecido por sua prudência, capturou fragmentos dessas narrativas. Cenas de pescadores olhando para o mar com apreensão, entrevistas com moradores que hesitam em compartilhar suas experiências mais íntimas, e, em uma gravação chocante, a voz de uma criança relatando ter visto seu amigo “flutuando para longe, como se o mar quisesse ele de volta”.
“Não é que a maré os leve fisicamente”, explica Joana, sentada em sua pequena sala, a luz fraca do abajur iluminando a pilha de fitas e o computador empoeirado. “É como se algo os puxasse para dentro. Uma força invisível, mais antiga que a própria cidade. Os mais velhos falam de pactos, de promessas feitas ao mar em tempos de fome, de desespero. E agora, a maré estaria cobrando seu preço.”
A vida em Porto Sereno, apesar da beleza natural, sempre foi dura. A pesca, a principal fonte de sustento, é imprevisível. A beleza da paisagem esconde a fragilidade de uma comunidade à mercê dos elementos. Esse cenário de vulnerabilidade, somado à falta de recursos e a uma certa descrença das autoridades externas, teria alimentado um folclore sombrio, um acúmulo de medos e superstições que se tornaram a única explicação para as perdas.
O documentário inacabado de Joana, “O Chamado das Ondas”, nunca foi exibido. As fitas estão guardadas, um testemunho mudo de um mistério que Porto Sereno tenta esquecer, mas que a maré, implacável, parece sempre trazer de volta à tona. O que aconteceu com os desaparecidos? Seriam apenas tragédias naturais mal compreendidas, ou haveria algo mais sinistro, uma força primordial atuando nas águas escuras que circundam essa pequena joia costeira?
E se a próxima maré a chamar for a sua?
Por: Felipe Bastos Guimarães

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