A colheita de poços: em poços de caldas, uma estranha praga de insetos gigantes ataca as plantações e, em seguida, os animais e, eventualmente, pessoas, sugerindo uma inteligência sinistra por trás.

A colheita de poços: em poços de caldas, uma estranha praga de insetos gigantes ataca as plantações e, em seguida, os animais e, eventualmente, pessoas, sugerindo uma inteligência sinistra por trás.

A Colheita de Poços

O cheiro de terra úmida e café torrado era o perfume de Poços de Caldas. Um perfume que, agora, começava a ser tingido por um odor acre, metálico, que pairava pesado no ar úmido do fim de tarde. Dona Elza sentia no peito um aperto que ia além da saudade dos tempos em que os morangos do seu sítio eram os mais doces da região. Agora, os morangos eram devorados antes de amadurecerem, por criaturas que ela nunca vira antes.

Eram os insetos. Não eram formigas comuns, nem lagartas inofensivas. Eram do tamanho de punhos fechados, com carapaças que brilhavam um verde escuro e profundo sob a luz escassa do entardecer. Moviam-se em silêncio, uma maré rastejante que devorava folhas, frutos, tudo. O som que produziam era um raspar contínuo, um sussurro faminto que tirava o sono de todos.

A princípio, a praga foi vista como um infortúnio, mais um dos tantos que a natureza, caprichosa, enviava para testar a paciência do homem. Os agricultores, como Seu Geraldo, o vizinho de Elza, com seus olhos marejados e mãos calejadas, tentavam de tudo. Sprays, fumaça, até mesmo rezas rezadas com o rosário que sua falecida mãe lhe dera. Nada funcionava. Os insetos pareciam imunes, indiferentes.

Mas a fome deles não se restringia às plantações. Começou com as galinhas, arrancadas dos poleiros em plena noite, deixadas como restos dilacerados. Depois, os cachorros do sítio, que uivavam em agonia antes de serem engolidos pela massa quitinosa. O medo, antes um murmúrio baixo, transformou-se em um grito coletivo que ecoava pelas ruas de paralelepípedos da cidade.

O silêncio que se seguiu ao desaparecimento dos animais era mais aterrorizador do que qualquer barulho. Era um silêncio expectante, como se a própria natureza estivesse prendendo a respiração. E então, vieram os primeiros boatos. Histórias sussurradas em volta de fogões a lenha, sobre uma garotinha da Vila dos Engenheiros que apareceu com arranhões profundos, marcas estranhas que não pareciam de animais comuns. E um velho, que morava isolado na mata, encontrado petrificado em sua cadeira, com a pele esverdeada, como se tivesse sido lentamente corroído.

Dr. Rodrigo, o médico da cidade, um homem cético e pragmático, tentava manter a calma, mas a cada novo caso, seu semblante se tornava mais sombrio. As marcas nos corpos eram bizarras, como picadas de agulha gigantescas, que deixavam um rastro de desintegração celular. Ele falava em doenças desconhecidas, em parasitas mutantes. Mas em seu foro íntimo, um pensamento inquietante começava a ganhar forma.

Uma noite, Elza acordou com um ruído diferente. Não era o raspar familiar dos insetos, mas um som metálico, quase melódico, que vinha de perto. Escondida sob o lençol, com o coração martelando no peito, ela espiou pela fresta da cortina. A lua cheia iluminava o terreiro, e lá, parados em um círculo perfeito ao redor do poço antigo do sítio, estavam eles. Os insetos gigantes. Mas desta vez, eles não estavam comendo. Estavam… se comunicando.

Uma luz fraca, um brilho azulado e pulsante, emanava de suas carapaças. Pareciam estar em transe, capturando algo do ar, algo que vinha do fundo do poço, do coração escuro da terra. Elza sentiu um arrepio gélido percorrer sua espinha. Aquilo não era fome cega. Havia um propósito. Uma inteligência. Algo antigo e sinistro despertara nas entranhas de Poços de Caldas. E a colheita, ela percebeu com um terror gélido, estava apenas começando. As pessoas já não eram apenas o topo da cadeia alimentar. Eram o próximo passo. E o poço, aquela fonte ancestral de água cristalina, agora parecia a boca de um abismo que engolia a luz e a vida.


Por: Catarina de Assis Mendonça

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