Relatório: o mistério silencioso de pindamonhangaba – uma estranha doença afeta moradores, suas memórias desaparecem junto com a identidade, deixando apenas um vazio aterrorizante.
Relatório: O Mistério Silencioso de Pindamonhangaba
A poeira da tarde pairava preguiçosamente sobre as ruas de Pindamonhangaba, diluindo os contornos das casas geminadas e das palmeiras imperiais que guardavam os portões. Um calor úmido, familiar para quem conhece o Vale do Paraíba, abraçava a cidade como um lençol pesado. Foi em meio a essa quietude que o estranho mal começou a se instalar, sutil como uma névoa fina, insidioso como uma raiz que se infiltra na terra.
Eu, Elara Vance, Arquivista do Crepúsculo, cheguei chamada por sussurros, por cartas tremidas enviadas por quem ainda se lembrava de ter algo a perder. Não era uma doença de febre ou tosse, mas algo mais sutil, um ladrão de almas. A primeira a me procurar foi Dona Aurora, cujos olhos, outrora vivos como jabuticabas, agora carregavam uma perplexidade serena. Ela era a matriarca de uma família tradicional, conhecedora de cada folha de mangueira em seu quintal, de cada ponto da renda que sua mãe lhe ensinara.
“Não sei mais quem eu sou, Dona Elara”, ela disse, a voz um fio, enquanto mexia em um xale que não parecia lhe pertencer. “Lembro-me de ter mãos que costuravam, mas não sei o que estou costurando agora. Lembro-me de um amor, mas o nome dele… foge.”
Essa era a assinatura do mistério: a ausência. Não o esquecimento de um fato específico, mas o desvanecer gradual da própria essência. Os pacientes, como eram chamados, tornavam-se telas em branco, espectros de suas vidas passadas. Eram os pais que não reconheciam os filhos, os artesãos que não sabiam mais manusear suas ferramentas, os amantes que se olhavam como estranhos.
O Dr. Matias, um homem pragmático de pele bronzeada pelo sol e um suor constante na testa, era um dos poucos que tentava aplicar a lógica àquela insanidade. Ele me mostrou seus cadernos de anotações, repletos de diagramas e exames inconclusivos. “É como se a rede neural estivesse sendo apagada, Elara. Mas não há sinais de lesão, nem toxinas detectáveis. É um desligamento programado, mas quem programou?”
A cidade, antes vibrante com o burburinho do mercado de peixe e o cheiro de café fresco das padarias, agora caminhava em câmera lenta. As conversas eram curtas, cheias de pausas, preenchidas pelo eco da confusão. Vizinhos observavam uns aos outros com uma desconfiança silenciosa, temendo que o vazio pudesse ser contagioso.
Conheci o jovem Lucas, um músico talentoso cujo violão jazia encostado na parede, mudo. Seus dedos, que antes dançavam sobre as cordas com a destreza de um pássaro, agora se moviam hesitantes no ar. “Eu era músico”, ele sussurrou, olhando para suas próprias mãos como se fossem objetos estranhos. “Eu sei que era. A melodia… eu a sinto aqui dentro, mas não consigo colocá-la para fora.”
A busca por respostas me levou a lugares improváveis: o antigo cemitério, onde lápides desgastadas contavam histórias de famílias inteiras que pareciam ter sido varridas da história. Percorri os arquivos da prefeitura, buscando registros de eventos anômalos, de epidemias esquecidas. Mergulhei nas lendas locais, nos contos de aparições e pactos antigos, na esperança de encontrar um fio condutor.
Um dia, enquanto examinava um mapa antigo de Pindamonhangaba, descobri uma peculiaridade. Uma área central, marcada como “Bosque Sussurrante” em mapas mais antigos, agora estava ocupada por um moderno complexo industrial, cujas torres de metal cintilavam sob o sol impiedoso. Os moradores mais velhos evitavam o assunto, a menção ao bosque parecendo evocar um desconforto primal.
“Era um lugar bonito”, Dona Aurora havia dito, um vislumbre de memória em seus olhos. “As árvores falavam com o vento.”
O que eu não podia apagar, o que permanecia gravado em minha alma de arquivista, era a sensação de perda. A perda do amor, da arte, da história, de si mesmo. A identidade, forjada a partir de incontáveis momentos, de experiências, de relações, era o mais frágil dos tesouros. E Pindamonhangaba estava perdendo o seu, um fragmento por vez, em um silêncio aterrorizante.
O que restava eram os rostos vazios, os gestos hesitantes, a busca incansável por um eco de quem um dia foram. A doença, silenciosa e implacável, não matava o corpo, mas desmantelava a alma, deixando apenas um receptáculo vazio, à espera de algo que nunca viria.
E a pergunta que pairava no ar úmido de Pindamonhangaba, tão pesada quanto a própria tarde, era: quando o último fio de memória se desfizer, o que restará de nós?
Por: Elara Vance, a Arquivista do Crepúsculo

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