A Tela Desbotada: O Retrato Familiar que Nos Leva a Contar os Dias
O cheiro de tinta fresca ainda pairava no ar quando a senhora Elza, com os dedos finos manchados de azul cobalto, deu os últimos retoques no quadro. Era o retrato da família Silva: ela, o marido, o filho caçula ainda com os dentes de leite, e a filha mais velha, com um sorriso de quem já sabia todos os segredos do mundo. Um momento congelado, um futuro promissor estampado na tela a óleo.
“A gente queria algo pra guardar pra sempre”, confidenciou Dona Elza, os olhos marejados sob a luz amarelada da sala de estar modesta. Ela aponta para a parede, onde o quadro, outrora vibrante, agora ostenta cores que o tempo insistiu em apagar. “Todo ano, eu dava um jeitinho de voltar lá. Com a câmera, a gente mesmo. Pra registrar como estavam, sabe? E pra colocar na moldura, junto com os outros.”
O “outros” de Dona Elza são, na verdade, o registro anual da mesma tela. Uma tradição familiar que começou com a euforia do primeiro retrato. O segundo ano, o filho mais velho, Pedro, o caçula da pintura original, já estava com a barba por fazer, um esboço do homem que se tornaria. O terceiro, a filha, Ana, mostrava a elegância de quem começava a trilhar seu próprio caminho.
O drama, sutil no início, começou a se desenhar de forma cruel. Um ano depois, a moldura, antes apertada em volta da família inteira, parecia ter ganhado um espaço vazio. “Foi quando o Tiago não veio pro Natal”, disse Dona Elza, a voz embargada. Tiago, o filho mais velho, que sempre trazia a alegria contagiante e as piadas sem graça. Ele se mudara para o outro lado do país em busca de trabalho, e a distância, implacável, começou a impor sua presença invisível no retrato.
A cada nova fotografia para complementar a moldura, o espaço deixado se tornava mais evidente. O canto onde Tiago deveria estar, sorrindo e abraçando o irmão, agora era um vazio preenchido pela solidão da moldura vazia. A cada aniversário da foto original, um membro era, de alguma forma, sutilmente retirado. Não fisicamente da casa, mas da proximidade, do convívio diário, dos abraços espontâneos.
“É como se a tela estivesse desbotando, mas não era a tinta”, explica Ana, hoje uma mulher de trinta e poucos anos, os olhos que um dia foram de segredos agora carregam a sabedoria das perdas. “Era a vida acontecendo. A gente crescendo, cada um seguindo seu rumo. A faculdade do Pedro, o casamento da Ana, a saudade que o Tiago sentia de casa. Cada etapa era um pedacinho a menos de ‘nós’ naquela foto.”
O contexto social da periferia de São Paulo, onde a família Silva vive, amplifica essa narrativa. A luta pela ascensão, a necessidade de buscar oportunidades longe do berço, a própria fragilidade das relações em tempos de correria e incertezas. O retrato se tornou um espelho cruel da realidade: a família que se projeta para o futuro, mas que, simultaneamente, se fragmenta em caminhos diversos.
O último registro anual, feito há poucos meses, revela um quadro ainda mais desolador. Um novo espaço, maior, se abriu. O filho do meio, Pedro, que sempre foi o pilar silencioso, agora vive em outro estado, dedicado aos estudos de pós-graduação. A tela a óleo, que um dia abrigou a pujança de cinco pessoas, hoje exibe um espectro de rostos cada vez mais dispersos, a cada ano mais distantes.
A sala de estar, outrora palco de risadas e abraços, agora guarda um silêncio pesado, interrompido apenas pelo tique-taque de um relógio que insiste em marcar a passagem inexorável do tempo. Dona Elza, com um suspiro que carrega o peso de décadas, olha para a moldura. O quadro original parece cada vez mais distante, um sonho pintado em cores vibrantes, em contraste com a realidade em tons de cinza que a tela se tornou.
Qual será a próxima ausência que o pincel invisível da vida pintará na tela da família Silva? E mais importante, o que resta de nós quando a gente começa a contar os dias, em vez de celebrá-los juntos?
Por: Silas Thorne, o Cronista do Insólito

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