Em uma cidade isolada onde uma névoa misteriosa surge todas as noites, as vítimas são encontradas com marcas que desafiam a explicação lógica, sugerindo uma criatura etérea predadora.

Em uma cidade isolada onde uma névoa misteriosa surge todas as noites, as vítimas são encontradas com marcas que desafiam a explicação lógica, sugerindo uma criatura etérea predadora.

O Véu de Ébano

Vila de Sombras, aninhada entre montanhas que o sol parecia esquecer, respirava o medo em cada telhado cinzento. Não era o medo das feras selvagens, nem das pragas que assolam os povoados. Era algo mais insidioso, algo que se infiltrava com a umidade fria e as horas que se arrastavam para a madrugada. Era o medo da Névoa.

Todas as noites, quando o último raio de sol se afogava nas encostas, ela descia. Uma massa impenetrável, densa como lã molhada, que engolia as casas, as ruas, os rostos familiares. Em suas profundezas, sussurrava-se, residia a Criatura.

Os primeiros desaparecimentos foram atribuídos a acidentes, a desorientação na escuridão espessa. Mas então, os corpos começaram a aparecer. Não corpos dilacerados, nem marcas de dentes ou garras. Eram marcas. Pálidas, delicadas, quase etéreas. Como se dedos invisíveis tivessem se contorcido na pele, deixando sulcos translúcidos que brilhavam sob a luz fraca das tochas. Algumas pareciam ter sido desenhadas, espirais perfeitas, padrões geométricos impossíveis de replicar por mão humana ou animal. Outras, mais aterrorizantes, eram simplesmente desprovidas de cor, como se a própria essência da vida tivesse sido sugada, deixando para trás uma casca vazia.

O Padre Elias, com sua voz embargada pela oração e pelo pavor, pregava sobre demônios e punições divinas. Mas os mais jovens, os que ainda guardavam uma fagulha de curiosidade em meio ao desespero, falavam de sussurros na névoa, de uma presença que não era carne nem osso. Diziam que a Criatura se alimentava de memórias, de medos, da própria vitalidade de suas vítimas. Que ela não matava, mas desfazia.

Isabelle, com seus quinze anos e olhos que já viram mais horror do que a maioria em uma vida inteira, era uma das poucas que se atrevia a ir além dos portões da vila ao entardecer. Ela observava. Sentia o ar se adensar, o silêncio se tornar opressivo. E via, nos momentos em que a névoa parecia recuar ligeiramente, formas que se contorciam nas sombras, etéreas, fugazes. Não eram visíveis aos olhos, mas o coração as sentia, o corpo reagia com um arrepio gélido.

Uma noite, seu irmão mais novo, Samuel, saiu para buscar o gato que havia fugido. O tempo passou. Isabelle sentiu o chamado da névoa, a urgência de encontrá-lo. Contra todos os avisos, ela se lançou na escuridão branca.

A névoa era mais fria do que o habitual. Os sons da vila se dissolviam. Isabelle chamava por Samuel, sua voz um fio tênue em um mar de silêncio. E então, ela o encontrou. Perto da velha clareira onde as árvores pareciam retorcer-se em agonia. Samuel estava deitado, os olhos abertos, fixos em um ponto invisível. E sobre sua pele, as marcas. Delicadas, como se um véu de seda gélida tivesse sido delicadamente estendido sobre ele. Mas não eram padrões. Eram fragmentos. Lembranças. A marca de um sorriso, o contorno de um abraço, a silhueta de um sonho.

Isabelle ajoelhou-se, um grito contido em sua garganta. Samuel não estava morto, no sentido tradicional. Ele estava… vazio. Uma tela em branco. E enquanto o pavor a dominava, Isabelle sentiu. Uma presença. Não a viu, mas a sentiu. Era como um sopro gélido, um toque que não deixava vestígios físicos, mas que parecia adentrar a alma. Ela sentiu sua própria essência ser sondada, seus medos, suas esperanças, suas memórias mais preciosas.

E então, uma única marca surgiu em seu próprio braço, no exato lugar onde sentiu o toque invisível. Era um padrão que ela reconheceu. Uma estrela. A estrela que ela sempre desenhava em seus cadernos, sua favorita. A Criatura não apenas se alimentava. Ela levava consigo um pedaço do que era a vítima. E deixava, em troca, um vestígio de si mesma. Um aviso. Ou uma promessa.

Isabelle pegou Samuel nos braços, sentindo o peso de um corpo que já não era totalmente vivo. A névoa começou a se dissipar com os primeiros sinais do amanhecer, como uma cortina que se retira após o espetáculo macabro. Mas para Isabelle, a névoa não havia desaparecido. Ela agora residia em sua própria alma, um lembrete constante do véu de ébano que cobria Vila de Sombras, e das marcas que ele deixava, indeléveis, em todos que ousavam cruzar seu caminho.


Por: Isabela Fernandes Couto

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