As Esculturas da Sombra
A oficina de Elias cheirava a pó de mármore e à suor frio. As paredes, outrora adornadas com esboços vibrantes e estudos de proporção clássica, agora penduravam panos sujos sobre formas inacabadas, ocultando segredos que a luz do sol parecia querer expor. Elias, um homem cujos traços outrora refletiam uma paixão latente, agora se curvava sob um peso invisível, seus olhos fundos fixos nas mãos que tremiam ao segurar o cinzel.
O medo. Ah, o medo. Não era o medo do fracasso, mas o do silêncio. O de morrer sem que uma única alma reconhecesse a tempestade de beleza e angústia que habitava em seu peito. Cada pincelada, cada curva planejada, cada bloco de mármore a ser desvendado era um grito silencioso lançado ao vazio, um clamor por um eco que nunca vinha.
A galeria, um espaço que prometia luz e admiração, tornara-se para Elias um mausoléu de suas esperanças desfeitas. Os críticos, com seus sorrisos condescendentes e palavras polidas, eram sombras que pairavam sobre suas criações. Seus comentários, cruéis em sua neutralidade, se enraizaram em sua alma como ervas daninhas, sufocando qualquer broto de autoconfiança. E foi entre esses fantasmas, moldados pela sua própria mente torturada, que nasceu a ideia.
Começou com um esboço. Uma figura distorcida, contorcida em agonia, com olhos que eram buracos negros e mãos que tentavam inutilmente agarrar o ar. Elias a chamou de “O Crítico”. A argila cedia à pressão de seus dedos frenéticos, reproduzindo a forma que o atormentava em seus pesadelos. Era uma liberação, um ato de desafio silencioso.
Logo, a oficina se encheu. “O Mecenas”, uma criatura com bolsos de ouro transbordando e um sorriso predador. “O Colecionador Invejoso”, com seus olhos esbugalhados e garras afiadas, cobiçando a essência alheia. Elias trabalhava incansavelmente, movido por uma energia febril que consumia seu sono e sua sanidade. O mármore se transformava em pesadelos sólidos, em manifestações tangíveis de sua angústia.
As figuras eram repulsivas, chocantes. Suas curvas eram dissonantes, seus rostos, caretas de tormento. Elias esculpia com uma fúria quase religiosa, descarregando em cada peça a frustração acumulada de anos de invisibilidade. E então, o inesperado aconteceu.
Um dos marchands de arte, um homem conhecido por seu faro para o bizarro, tropeçou na oficina de Elias. Ele não via as formas clássicas que Elias tanto almejava, mas via algo que a arte moderna clamava: originalidade, emoção crua, a beleza perturbadora do grotesco. Elias, para seu horror, foi descoberto.
A exposição foi um sucesso estrondoso. As figuras de Elias atraíram multidões. As conversas nas galerias eram sobre o “mestre da angústia”, o “artista que desnudava a alma humana em sua mais sombria feiura”. Elias ouvia os elogios, os murmúrios de admiração, e sentia um arrepio gelar sua espinha. Era a atenção que ele sempre desejara, mas era para as suas sombras que ela se voltava.
A loucura começou a se instalar como uma névoa espessa. Elias via os rostos de suas esculturas nos rostos das pessoas que o cercavam. Os críticos que antes o ignoravam agora o adulavam, mas em seus olhos ele via o brilho predatório de suas criações. O medo do reconhecimento transformou-se no medo de ser consumido por ele.
Ele se isolou. A oficina tornou-se seu santuário e sua prisão. A luz do dia era incômoda, os sons da cidade, cacofonias torturantes. Ele continuou a esculpir, mas agora as figuras eram mais desfiguradas, mais violentas. Eram as pessoas que o elogiavam, os que compravam suas obras, transformados em monstros de mármore, suas bocas escancaradas em gritos silenciosos.
O desespero era um companheiro constante. Elias sentia que estava se tornando aquilo que criava, um ser deformado pela própria arte. A linha entre o criador e a criação se tornava cada vez mais tênue. Uma noite, sob o brilho fraco de uma lâmpada de óleo, ele pegou um novo bloco de mármore. Desta vez, não seria uma figura de um algoz imaginário.
Seria ele mesmo.
Com o cinzel em punho, Elias começou a esculpir. O mármore frio absorvia os golpes furiosos, mas não era suficiente. A dor física era um alívio para a tortura interna. Ele sabia o que precisava fazer. A arte lhe dera voz, mas a voz era um eco distorcido. Ele precisava do silêncio final, da última grande obra que o libertaria de sua própria sombra. A oficina permaneceu em silêncio naquela noite, pontuada apenas pelo som surdo do cinzel contra a pedra. E quando o sol da manhã banhou as esculturas grotescas, ele encontrou a oficina vazia, mas a última criação, uma figura inacabada de um homem se despedaçando, testemunhava um ato final de desespero, um reconhecimento sombrio demais para ser ignorado.
Por: Marina Rocha Antunes

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