As Sombras de Ouro Negro
O ar pesado e úmido da biblioteca municipal de Ouro Preto, com seus corredores escuros e estantes repletas de volumes empoeirados, abraçava os cinco universitários como um manto de séculos. Cecília, historiadora de plantão, passava os dedos com reverência pelas lombadas gastas, enquanto Leo, o pragmático da turma de engenharia, já sentia o cheiro de mofo se infiltrar em suas narinas. Sofia, aspirante a escritora, buscava inspiração nas velhas paredes, e Rafael, o fotógrafo, capturava a atmosfera com sua lente. Pedro, o mais introvertido, simplesmente se deixava envolver pelo silêncio denso.
Eles estavam ali para um intercâmbio cultural, um mergulho na história de Minas Gerais, mas a proposta de explorar a biblioteca, descrita como um labirinto de saberes esquecidos, foi de Cecília, movida por uma curiosidade insaciável pelos recantos menos explorados. Foi enquanto folheavam um atlas geográfico antigo, com mapas desbotados de rotas que já não existiam, que Rafael, em um impulso de curiosidade, afastou uma prateleira solta. Atrás dela, uma pequena cavidade se revelou.
Dentro, um objeto de couro escuro e desgastado repousava empoeirado. Era um diário. A capa era lisa, sem título, com um fecho de bronze que, para surpresa de todos, cedeu com um clique suave. As páginas, amareladas e quebradiças, guardavam uma caligrafia peculiar, em português arcaico e, por vezes, em um alemão gutural, salpicado de símbolos estranhos. Era o diário de um imigrante, datado do final do século XIX.
“Isso é incrível!”, exclamou Cecília, seus olhos brilhando. “Deve ser uma fonte primária fascinante!”
Nas primeiras páginas, o imigrante, um homem chamado Johannes, descrevia sua árdua jornada da Europa para o Brasil, a esperança de uma nova vida em terras férteis, mas também o temor que pairava sobre ele. As dificuldades eram imensas: a terra incerta, as doenças desconhecidas, e, em suas palavras, “sombras que rastejavam na noite e sussurravam mentiras”. A menção a essas “sombras” se tornou recorrente.
Ao avançar na leitura, o tom do diário mudou drasticamente. Johannes descrevia rituais. Não eram os rituais de fé que se esperariam de um recém-chegado, mas algo mais primitivo e sombrio. Ele falava de cânticos em línguas esquecidas, de oferendas feitas sob a lua nova em clareiras escondidas, e de invocações para afastar o mal. Pareciam ser práticas de proteção, um esforço desesperado de homens e mulheres que sentiam a presença de algo malévolo em sua nova terra.
“Ele fala sobre ‘o Vazio’, a ‘Fome que não dorme'”, murmurou Sofia, sua voz embargada pela emoção crescente. “Ele acreditava que a terra era habitada por entidades antigas, que se alimentavam da desgraça e da escuridão.”
Leo, com seu ceticismo habitual, tentou encontrar uma explicação lógica. “Provavelmente era febre, alucinações devido às condições precárias”, disse ele, mas sua voz soava menos confiante do que pretendia.
Rafael, focado em capturar cada detalhe, fotografava as páginas com precisão. Pedro, que até então permanecia calado, sentiu um arrepio subir pela espinha ao ouvir as descrições dos rituais. Havia uma intensidade nos relatos de Johannes que transcendia a mera superstição.
À medida que o diário se adentrava em mais detalhes, os rituais pareciam se tornar mais complexos, envolvendo a busca por objetos de poder e a criação de amuletos que pareciam mais talismãs para invocar do que para repelir. Havia menções a uma “pedra negra” e a um “círculo de proteção quebrado”.
Uma noite, enquanto reliam uma passagem particularmente perturbadora sobre um ritual que envolvia a invocação de um “guia da sombra” para obter conhecimento, um vento gelado soprou pela biblioteca, apesar de todas as janelas estarem fechadas. Uma lâmpada antiga oscilou, projetando sombras dançantes nas paredes, e um leve cheiro de enxofre pareceu pairar no ar.
“Vocês sentiram isso?”, perguntou Cecília, com a voz trêmula.
Leo, agora visivelmente perturbado, apenas assentiu. Sofia agarrou o braço de Rafael, seus olhos arregalados.
O diário continuava, detalhando a crescente paranoia de Johannes e a crença de que os rituais, em vez de trazerem proteção, estavam atraindo a atenção das forças que ele tentava apaziguar. O último registro era enigmático e apressado: “A pedra negra… eles sabem. O círculo está aberto. Não há mais refúgio.”
Naquele momento, um som baixo e gutural pareceu ecoar de algum lugar profundo na biblioteca, um som que não parecia humano. As luzes piscaram novamente e, por um instante fugaz, todos juraram ter visto uma figura esguia e sombria espreitar no final de um corredor escuro.
O pânico tomou conta. Sem dizer uma palavra, fecharam o diário com violência, o som do couro raspando como um grito abafado. A atmosfera outrora inspiradora da biblioteca havia se transformado em um palco de terrores antigos. Leo, que antes buscava a lógica, agora era o primeiro a sugerir uma retirada rápida.
Saíram da biblioteca em silêncio, o peso do diário e de seus segredos pressionando-os. As ruas de Ouro Preto, antes charmosas e históricas, agora pareciam repletas de cantos escuros e de um silêncio que escondia algo mais do que apenas o descanso da noite.
Naquela noite, nenhum deles conseguiu dormir. As descrições dos rituais, a sensação de algo observando, e a última mensagem de Johannes assombravam suas mentes. A busca por conhecimento havia levado a um lugar onde as sombras eram mais reais do que o sol. O intercâmbio cultural em Ouro Preto se tornara uma jornada inesperada para os limites da realidade, onde o passado obscuro da cidade parecia ter despertado para reclamar o que lhe era devido. E, no silêncio da madrugada, cada um deles se perguntava se a leitura daquele diário havia, de fato, aberto um círculo que nunca mais seria fechado.
Por: Beatriz Almeida Vianna

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