O Último Bilhete para a Eternidade
A garoa fina beijava o concreto cinza da Estação da Luz, cada gota um murmúrio na sinfonia melancólica de uma noite paulistana que se arrastava. O vapor fantasmagórico das locomotivas passadas, ou talvez apenas a umidade impregnada nos tijolos centenários, criava uma atmosfera densa, um véu translúcido que parecia abrigar segredos. Foi sob essa névoa que eu, Ricardo Soares Guedes, em busca de inspiração para um novo conto, me vi envolvido por algo mais do que a melancolia da arquitetura gótica.
Eu estava sentado em um banco de madeira polida pelo tempo, as mãos enterradas nos bolsos do meu casaco surrado, observando os poucos viajantes noturnos que desfilavam, sombras apressadas em seus próprios dramas silenciosos. A estação, um colosso de ferro e vidro, guardava as memórias de incontáveis partidas e chegadas, de alegrias e despedidas, de vidas que cruzaram seus trilhos e seguiram destinos irrevogáveis.
Foi então que a vi. Uma figura translúcida, quase etérea, sentada no banco em frente ao meu. Vestia um traje de época, um vestido longo e escuro, e seus cabelos negros, presos em um coque elegante, pareciam refletir a pouca luz que banhava a plataforma. Havia uma tristeza profunda em seus olhos, uma saudade que transcendia o tempo.
Hesitei, o instinto de escritor lutando contra a racionalidade que me dizia que aquilo era apenas um efeito da minha imaginação fértil, alimentada pela atmosfera peculiar do lugar. Mas a figura não se desfez. Ela olhou para mim, e em seu olhar, vi um convite silencioso.
“Senhor,” sua voz era um sussurro carregado de ecos, como se viesse de um poço profundo de tempo. “Você também sente a presença?”
Fiquei atordoado. “A presença de quê?”, perguntei, minha voz um pouco trêmula.
Ela sorriu, um sorriso que não alcançava seus olhos. “Dos que ficaram. Dos que esperam. Dos que nunca partiram de verdade.” Ela fez um gesto sutil para a vastidão da estação, para as sombras que dançavam nas colunas e nos arcos. “Esta estação não é apenas um ponto de partida, senhor. É também um porto de chegada para almas perdidas.”
Fascinado, e com o coração batendo acelerado em antecipação a uma história que se desenrolava diante de mim, perguntei: “Quem é você? Por que está aqui?”
“Meu nome era Clara,” respondeu ela, o nome soando como uma melodia esquecida. “Eu esperava por alguém. Alguém que nunca chegou. E agora, aqui estou, presa entre o antes e o depois, entre o desejo de ir e a impossibilidade de ficar.” Ela olhou para os trilhos, como se pudesse ver os trens que nunca parariam para ela. “As almas que morrem com uma esperança não realizada, com um amor que não foi consumado, com um arrependimento que não pôde ser remediado… elas se apegam aos lugares onde suas vidas mudaram para sempre. E esta estação, com tantas despedidas e reencontros, é um ímã para tais energias.”
Enquanto ela falava, outras figuras começaram a se materializar nas sombras. Um homem em um uniforme de estivador, com um olhar de resignação. Uma jovem com um véu de noiva, lágrimas invisíveis escorrendo por seu rosto. Um garoto, com um pequeno brinquedo de madeira em mãos, olhando para um ponto distante com curiosidade eterna. Eram os espíritos, os ecos de vidas que haviam deixado suas marcas nos trilhos da Estação da Luz.
“Eles buscam redenção?”, perguntei a Clara.
“Não exatamente redenção,” ela corrigiu suavemente. “Eles buscam o fechamento. A compreensão. A paz que não encontraram em vida. Alguns tentam enviar mensagens, avisos. Outros apenas observam, revivendo os momentos cruciais de suas existências.”
Um murmúrio crescente começou a emanar dos espíritos. Eram fragmentos de conversas perdidas, suspiros inaudíveis, a melodia triste de destinos interrompidos. Comecei a ouvir, ou melhor, a *sentir*, as histórias. A história do estivador que morreu sem saber se sua família estava segura. A história da noiva abandonada no altar. A história do garoto que se perdeu na multidão, para nunca mais ser encontrado por seus pais.
“E você, Clara?”, perguntei, sentindo uma empatia profunda por aquela alma que parecia tão imersa em sua própria solidão. “Qual era a sua espera?”
Ela suspirou, e um véu de tristeza ainda mais profundo cobriu seu rosto translúcido. “Eu esperava por um amor de outra cidade. Ele prometeu vir, me levar para longe, para um futuro que só existia em nossos sonhos. Mas o trem que o traria partiu sem ele. E eu, esperando aqui, perdi o meu próprio trem para a vida.”
Uma tristeza cósmica se instalou em mim. A imensidão da perda, a fragilidade das esperanças humanas, a cruel indiferença do tempo. Eu era apenas um observador, um contador de histórias, mas ali, naquela estação fantasmagórica, eu era um ouvinte privilegiado dos ecos do desespero.
De repente, um leve brilho surgiu no fim da plataforma. Um trem, diferente de todos os que eu já vira, parecia se aproximar. Era etéreo, feito de luz e memórias. E ele não parava. Ele passava, suave e silencioso, levando consigo os espíritos que pareciam encontrar a paz em sua passagem. O garoto foi o primeiro, acenando para nós com seu brinquedo. Depois o estivador, um leve sorriso em seus lábios. E finalmente, Clara.
Ela se virou para mim, um vislumbre de gratidão em seus olhos. “Talvez, senhor,” disse ela, sua voz perdendo a fragilidade, “nem todos os bilhetes levam ao esquecimento. Alguns levam à continuação.”
E com um último olhar, ela se dissolveu na luz do trem que passava, levando consigo os ecos de sua espera. Os outros espíritos também se desvaneceram, um a um, como se tivessem finalmente recebido a passagem que tanto ansiaram.
A plataforma ficou vazia novamente, apenas a garoa e o frio da madrugada. A Estação da Luz voltou a ser o que era: um ponto de trânsito para os vivos. Mas para mim, ela se transformara em um palco de histórias não contadas, de vidas que persistiam em seus trilhos eternos. E eu, Ricardo Soares Guedes, levei comigo não apenas a inspiração, mas a certeza de que, em cada estação, em cada canto do mundo, há sempre espíritos esperando pelo seu último bilhete para a eternidade. E alguns deles, talvez, estejam apenas esperando por um bom ouvinte para contar suas histórias.
Por: Ricardo Soares Guedes

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