O Rosto na Bruma

O Rosto na Bruma

O motor do velho jipe tossiu, cuspindo fumaça como um dragão cansado, e finalmente se rendeu ao silêncio. A bruma, densa e fria, abraçava a paisagem com a opacidade de um véu fúnebre. Daniel, documentarista de renome, sentiu o peso daquele manto branco intensificar-se. Estava na Ponte da Saudade, um nome que, em si, já carregava uma melancolia sussurrada.

Seu objetivo: desvendar o mito. As histórias circulavam em murmúrios nos vilarejos próximos, lendas sobre uma névoa peculiar que, em dias específicos, roubava a identidade daqueles que a cruzavam. Não um roubo físico, mas um apagamento da memória, da própria essência. Rostos perdidos na bruma, lembranças que se esvaíam como fumaça. Para Daniel, um homem que dedicara a vida a registrar e preservar, era um desafio irresistível, uma afronta à sua própria percepção de realidade.

Chegou com a câmera em punho, o tripé firme nas mãos calejadas pela profissão. Os habitantes locais, com seus olhos profundos de quem convivia com o mistério, o haviam alertado. “Não é jogo, moço”, disse Dona Aurora, a anciã de pele marcada pelo tempo, “a névoa tem fome.”

Os primeiros dias foram de decepção. A névoa era apenas névoa, um espetáculo atmosférico sem maiores consequências. Daniel entrevistou alguns dos mais velhos, com a paciência que a arte exigia. Ouviu sobre o medo ancestral, sobre o temor de se perder na própria existência, de voltar para casa e não reconhecer os filhos, ou pior, não ser reconhecido. Histórias de um tempo onde a vida era mais terrena, onde a natureza detinha poderes que a ciência moderna tentava, em vão, desmistificar.

No quarto dia, a névoa retornou com uma ferocidade diferente. Envolvente, penetrante, parecia sussurrar segredos ancestrais. Daniel decidiu que era o momento. Montou a câmera na ponte, a lente focada no arco de pedra antigo, coberto de musgo. Atravessou a ponte, sentindo a umidade gelada beijar sua pele. A visibilidade era quase nula. Tinha que se esforçar para enxergar os próprios pés.

Ao retornar, enquanto ajustava o tripé, uma sensação estranha o invadiu. Um vazio. Tentou pensar no nome de sua produtora, a empresa que investia em seus projetos. O nome lhe escapava. Tentou lembrar do rosto de sua mãe, uma imagem querida, um porto seguro. A memória era nebulosa, as linhas do rosto, incertas. Um pânico frio começou a borbulhar em seu peito.

Pegou o celular para anotar suas impressões, para registrar aquele momento crucial. A lista de contatos apareceu na tela. Nomes familiares, mas sem o peso da familiaridade. Quem era “Maria Clara”? Ele a conhecia? O número de telefone era apenas uma sequência de dígitos sem um eco emocional.

Voltou à câmera. O rolo de filme ainda girava. Decidiu assistir a gravação, esperando que as imagens lhe trouxessem de volta o que sua mente parecia ter perdido. A imagem era clara, a névoa densa envolvia a ponte. Ele aparecia, sim, atravessando a ponte. Mas o rosto… o rosto na tela era um borrão, uma forma indistinta que ele não conseguia associar a si mesmo. Era como olhar para um estranho.

Os dias seguintes foram um turbilhão de angústia e desorientação. Daniel se viu em um labirinto de esquecimento. Lembravase de ter um trabalho, de ser um documentarista, mas os detalhes, as conquistas, os rostos das pessoas com quem convivia, tudo se desfazia na névoa persistente que parecia ter se alojado em sua própria mente.

Passou a evitar a ponte, temendo o que mais poderia ser levado. Começou a questionar tudo. Se sua própria identidade podia ser tão frágil, tão vulnerável a um fenômeno atmosférico, o que era real? A memória era apenas uma construção efêmera? A sua própria história, os seus registros, eram apenas ilusões?

Certa tarde, enquanto observava a bruma densa envolver a Ponte da Saudade de longe, sentiu uma pontada de algo. Uma lembrança fragmentada. Um sorriso. Um abraço. A imagem de uma criança. Era frágil, tênue, mas estava ali. Tentou agarrá-la, como quem tenta segurar a areia que escorre entre os dedos.

Naquele dia, Daniel não pegou a câmera. Não gravou. Sentou-se na beira da estrada, o jipe abandonado ao seu lado, e observou a névoa. Não mais como um observador externo, mas como alguém que experimentava a sua própria fragilidade. A Ponte da Saudade não era apenas um local físico, mas um espelho da condição humana, um lembrete de que a nossa identidade, tão cara, pode ser tão passageira quanto um sopro na bruma. Talvez, pensou, a verdadeira arte não fosse capturar a realidade, mas sim aprender a conviver com o seu desvanecer. Talvez, na neblina, houvesse uma verdade mais profunda sobre o que significa ser quem somos, ou quem pensamos que somos. E ele, o documentarista, agora era parte da história que tanto buscava desvendar. E o seu próprio rosto, em sua memória, se tornara a sua mais intrigante e assustadora gravação.


Por: Catarina de Assis Mendonça

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